UMA INSÓNIA DÁ NISTO…

por Cílio Correia | 2017.03.08 - 09:16

 

 

Incapaz de resistir a uma insónia, disse para comigo, quando são três horas da madrugada, aguenta-te. Quanto mais me esforço por compreender com mais dúvidas fico. Nada a fazer. Nada faz efeito. Fechei os olhos para ver se conseguia descortinar algo, arrumar as ideias. Nem assim.

Quando voltei a abrir os olhos, percebi que tinha sonhado com um naufrágio no mar algures entre os Açores e os Estados Unidos, ou no Mediterrâneo?!… Fiquei na dúvida. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. No sonho os náufragos foram resgatados por um barco que atirou umas quantas bóias, enquanto os restantes se tentavam safar à morte anunciada, por afogamento. Foi a forma mais benévola de descrever o pesadelo. Por vezes, ainda fico inquieto. Já não devia com os anos que levo e aquilo a que já assisti.

Aliás, sempre fui um noctívago. Concordo, em absoluto. As noitadas eram boas para estudar. Durante o dia, a coisa não rendia. Havia sempre alguém a chatear. Agora sei que estou acordado, e que não se trata de nenhum sonho.

Bebi um gole de água. Ouço as quatro horas no relógio da torre da igreja. Nitidez espetacular… uma, duas, três, quatro. Voltei á cozinha comer uma fatia de bolo. Fiquei mais confortável. O mal era fome!… Não creio. De qualquer modo, soube bem.

Voltei para o sofá. Abri o caderno de notas. Vai ser assim até chegar o sono. Nunca me tinha dado conta disso, mas hoje apercebi-me. Mas, que querem?!… Ao olhar de novo para o relógio apercebi-me do adiantado da hora: quase cinco da manhã. Estava na hora de ir esticar as pernas.

Saio de casa por volta das oito horas. O carro pega assim que rodo a chave. Tem no para-choques dianteiro, uma discreta amolgadela e uns riscos que uma alma fez numa manobra manhosa e saiu de fininho. Na porta do lado direito, há um risco a todo o comprimento, feito por alguém que julgou estar perante uma ardósia, além de toques, sem importância.

Faço uma paragem no café da terra. Estaciono o carro no passeio em frente, com as duas rodas do lado direito em cima do passeio. Tenho a sensação de que o corpo pede um café. Teimosias insondáveis. As ideias ficam mais claras no silêncio da noite e da madrugada.