UMA HISTÓRIA DE VIDA BANAL…

por Cílio Correia | 2017.03.10 - 10:20

 

 

Interrompeu os estudos. Ficou com o 9º ano. Empregou-se numa pastelaria. Embeiçou-se por um companheiro da escola. Foi viver com ele numa casa arrendada. Engravidou, quase de seguida. Com o nascimento do filho e a estabilidade no emprego do marido abalançou-se a um empréstimo para comprar um T3. Tirou a carta de condução. Comprou um automóvel utilitário. Acabaram por se casar pela igreja, legalizando uma relação de dois anos, para satisfazer os pais. O marido era operador de máquinas na construção civil.

O rumo das coisas permitia-lhe a ambição de proporcionar ao filho condições para uma educação que os seus pais não lhe conseguiram dar. O filho sofria de asma. Uma saúde frágil: duas a três gripes por ano e otites sucessivas faziam do inverno um pesadelo. O miúdo teve que fazer uma timpanoplastia.

Entretanto, atreveu-se a mais uma gravidez que lhe deu uma filha de olhos brilhantes, azuis, cabelo alourado, liso, uma doçura. Era o orgulho da mãe. Saudável. Nada como o irmão, um lingrinhas, dizia a sorrir. A empresa de construção civil do marido começou a atrasar os pagamentos. Mas, dado que tinham poupanças lá iam conseguindo equilibrar as coisas, até que a empresa deixou de pagar. Acenaram-lhe com uma ida para Angola. Não se via lá.

Começou a contactar com familiares no estrangeiro, no Canadá, mas também eles estavam em dificuldade, de modo que o marido emigrou para a Suíça. Desfizeram-se dum dos automóveis para pagar a viagem. O marido andou a deus-dará, até que acabou num emprego como porteiro. Partilhava um estúdio com uma colega para diminuir as despesas, mas acabou por se ir afastando da mulher e dos filhos.

Acabaram por se separar. Ficou com a guarda dos filhos. O ex-marido, durante dois anos, ainda mandava pensão de alimentos, mas até isso acabou. Hoje não envia nada. A mulher resignou-se. Espera renascer, um dia destes, a custo de grandes sacrifícios e da segregação dos filhos da vida que tinha idealizado, o que a revolta ainda mais. A sorte esteve ali, à mão de semear. Vive inconsolável. Uma vida igual a tantas outras, banal, que a crise tolheu, sem remédio.