UMA ESPÉCIE DE BIBLIOTECA

por José Carreira | 2016.02.09 - 11:55

 

 

“Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca”

(Jorge Luís Borges)

 

Sempre que visito a família, radicada na Alemanha, ofereço um livro à minha sobrinha. Dois dos presentes do último Natal foram livros de Enid Blyton: “As Gémeas:.O terceiro período em Santa Clara” e “Os Cinco na Ilha do Tesouro”. Faço-o porque acredito no valor intrínseco do livro e por considerar que o gosto pela leitura deve ser estimulado desde tenra idade. A Cintia tem nove anos!

Ao escolher os livros, quando toquei no exemplar da aventura dos “CINCO,” senti que regressei ao passado, numa espécie de “terapia da reminiscência”. O meu gosto pela leitura resultou do contacto com as múltiplas aventuras da Zé, do Julio, da Ana, do David e do Tim; do Asterix e do Obelix; do Lucky Luke; do Tintin…

Na breve “viagem ao passado”, compreendi melhor que o consagrado escritor Jorge Luis Borges pudesse imaginar  que o “paraíso seja uma espécie de biblioteca”. Com a devida vénia, atrevo-me a dizer que o paraíso será uma espécie de biblioteca móvel.

Para mim, e para muitos amigos, a biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian[1] foi uma espécie de paraíso ao qual acedíamos gratuitamente, na nossa aldeia, à porta das nossas casas. O acesso mensal ao Éden dependia apenas da apresentação do cartão de leitor, guardado religiosamente, e do bom trato dado aos livros que requisitávamos.

“(…) uma das iniciativas mais marcantes da Fundação, a das bibliotecas itinerantes, e que consistia numa ideia simples e extremamente eficaz: equipar carrinhas com livros e fazêlos chegar a vários pontos de um país pobre, onde o contacto com o livro e a leitura eram praticamente inexistentes. Acesso livre às estantes, empréstimo domiciliário e serviço gratuito eram as regras de ouro deste projecto, idealizado por Branquinho da Fonseca, director do Serviço de Bibliotecas Itinerantes desde a sua criação até 1974, data da sua morte.” (…)

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“Ao longo destes 44 anos de existência, a Fundação, através das suas bibliotecas, emprestou cerca de 97 milhões de livros a quase 29 milhões de leitores, espalhados por três mil e novecentas povoações.” (NEWSLETTER JUNHO.2008|NÚMERO 94, Fundação Calouste Gulbenkian)[2]

Um projeto soberbo, revelador de uma visão extraordinária do seu mentor, especialmente se atendermos ao facto de ter sido iniciado em Maio de 1958. O programa terminou em 2002, talvez como consequência do maior investimento do Estado  que permitiu a gradual implementação de uma rede de bibliotecas públicas e escolares pelo país que também deram um importante contributo na facilitação do  acesso aos livros, revistas e jornais.

Na era do consumo de massas é significativo que os portugueses, cidadãos da União Europeia, tenham as menores taxas de participação em actividades culturais. Consumir cultura não é uma prioridade nem uma necessidade emergente. Portugal está ao nível da Roménia e da Bulgária, ocupando os últimos lugares da tabela no que concerne à participação em atividades culturais.

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Os hábitos culturais e, neste caso mais específico, de leitura estão umbilicalmente ligados aos indicadores da educação.

No campo da educação, da generalização da alfabetização ao alargamento da escolaridade obrigatória até aos 18 anos, ainda que timidamente e ziguezagueando entre agendas políticas que nem sempre correspondem às necessidades das revisões curriculares que se coadunem com a sociedade do século XXI, a educação em Portugal tem evoluído nas últimas décadas.

De acordo com o relatório How”s Life? 2015[3], em Portugal, entre 2009 e 2013, a percentagem de adultos em idade ativa que completaram o ensino secundário aumentou 10,2 pontos percentuais, para os 40%.

Dados que, quando comparados com a média da OCDE (77,2% concluíram o secundário), deixam bem claro que há muito trabalho para realizar se quisermos diminuir a brecha educacional existente.

Não estarei a ser injusto ao afirmar que, neste início de 2016, os  níveis de qualificação se mantêm baixos e as literacias literária e científica continuam longe da média europeia.

Apesar da multiplicidade de novas plataformas digitais de leitura e do alargamento da rede de bibliotecas, arrisco-me a afirmar que as bibliotecas itinerantes terão terminado extemporaneamente, ainda hoje seriam uma mais valia e cumpririam a sua missão.

Quanto à desejável mobilidade social, que a educação e a ciência deveriam permitir, não passa da utopia do “elevador social” que bloqueou ou funciona mal.

Deixo-lhe quatro sugestões de leitura: Submissão de Michel Houellebecq; O Fim do Homem Soviético de Svetlana Aleksievitch; A Desumanização de Valter Hugo Mãe e Poemas Completos de Herberto Helder.

 

NOTAS:

  • As equipas que seguiam estrada fora incluíam um encarregado que orientava o leitor nas escolhas.

 

 Entre os que exerceram essa função estão os poetas Alexandre O’Neill e Herberto Hélder.

  • As fotografias das carrinhas são da Fundação Calouste Gulbenkian.
  • As fotografias da biblioteca, da minha autoria, são da nova Biblioteca Pública de Stuttgart.

 

[1] http://www.gulbenkian.pt/Institucional/pt/Homepage

[2] http://www.gulbenkian.pt/media/files/FTP_files/pdfs/newsletter08/94.pdf

[3] http://www.keepeek.com/Digital-Asset-Management/oecd/economics/how-s-life-2015_how_life-2015-en