Um pequeno milagre e outra tão grande magia

por Amélia Santos | 2016.03.28 - 15:21

 

“Precisamos de fazedores de milagres, simples, profundos, com humor e alegria, com inteligência e sabedoria”

Esta frase estava inscrita na parede de um auditório onde assisti à apresentação do Livro Aberto de Frederico Lourenço, de quem sou uma grande admiradora. Enquanto esperava que a sessão começasse, e também porque estava sozinha, retirei da mala um dos meus miseráveis cadernos, com capa desfeita pelas intempéries a que são expostos (onde tudo cabe e onde convivem diferentes objetos quase em harmonia – desde uma garrafa de água, a um pacote de bolachas, canetas e lápis, bilhetes de cinema…) e anotei a frase. Anotei a frase convencida de que iria assistir ali a um pequeno milagre relacionado com a inteligência, sabedoria e humor do F.L., o que, na verdade, me levara até Coimbra.

O primeiro fazedor de um pequeno milagre, a que assisti, foi o padre Rui Santiago que apresentou o livro do F.L.. Sem formalismos nem convenções antiquadas, falou para a audiência de forma simples, alegre e com um sentido de humor ímpar. Não é vulgar ouvir um comunicador tão interessante, que prende a atenção da plateia logo na primeira frase sem nunca a perder até ao fim. Não estamos habituados a ouvir um padre a falar de forma tão livre e calorosa, tão brincalhona e expansiva de histórias que lhe foram acontecendo ao longo da sua vida e, mais particularmente, no que respeita à sua vida religiosa, com as comunidades em que tem trabalhado. Penso que passei o tempo em que ele usou da palavra a sorrir e, em alguns momentos, a rir mesmo. Que pequeno grande milagre este!

Tive tanta vontade de tirar notas de algumas coisas que ele foi dizendo, mas aquele miserável caderno…agora com gente sentada ao meu lado, inibiu-me de nele escrever… que raio, com tantos cadernos bonitos que guardo como relíquias em casa, ando sempre com estas sebentas baratas, sem qualquer qualidade, estragadas e envelhecidas… Só mesmo eu! Quantas vezes me penalizei!… O padre Rui Santiago vai certamente (depois de lhe pedir amizade no facebook…) levar-me a percorrer alguns kms para o voltar a ouvir falar. Talvez para o voltar a ouvir falar da Bíblia numa das sessões que ele organiza para o efeito, onde descompõe o texto, examina a palavra e os seus sentidos, discute ideias abertamente e deixa que todos interroguem a palavra sagrada. A certa altura o Padre Rui Santiago disse que “a fé vive da pergunta e morre na certeza. E que só uma fé tosca tem medo da pergunta.” Não é maravilhoso? Não é este o caminho que o cristianismo tem que seguir na atualidade? Ao padre Rui Santiago desejo muita vitalidade e alegria para continuar a cativar plateias, a fazer-nos sentir que a “palavra de Deus” não é uma relíquia intocável a ser conservada, de preferência, num relicário, mas sim uma palavra com vida, dinâmica, que deve ser lida, relida, explorada, discutida… Delicioso! E, sim, concordo em absoluto: “É nas certezas que nos perdemos!”

Quanto ao Frederico Lourenço, o segundo milagre-magia, é sempre um prazer lê-lo e ouvi-lo. É um sábio, um homem com uma inteligência e culturas raras, um pensador, um crítico sempre com argumento e fundamento. Este Livro Aberto fala-nos de textos da Bíblia que ele tem andado a traduzir diretamente do grego. Oferece-nos uma reflexão sobre aquele que o autor considera “o mais fascinante livro alguma vez escrito; um texto que, no seu melhor, é de uma riqueza inesgotável, de ímpar magnificência expressiva, e onde encontramos do mais arrebatador e do mais comovente que a mente humana alguma vez terá considerado imaginar.” Fala-nos das muitas contradições que encontra nos livros dos apóstolos, dos incómodos, dos eufemismos das traduções que nos chegaram, das mitigações que nos foram dadas ouvir e pouco interpretar… Enfim, é uma nova leitura que desconstrói, que interroga e desencadeia a reflexão de cada um, sobretudo dos crentes, mas também dos que sendo católicos nunca leram a Bíblia. Assim, O Livro Aberto de F.L. representa também um desafio, o de ler e de nos deixarmos surpreender pela leitura de textos tão extraordinários…

Por fim, devo confessar que me deixou gelada a falta de entusiasmo e afeto revelada por aquela tradicional academia, agarrada aos formalismos, à tradição, a ideias que estão emprateleiradas em calhamaços cheios de pó… Coimbra deve abrir janelas e portas e deixar entrar o ar, o vento, o sol…

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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