Um país chamado Escola

por Alexandra Azambuja | 2016.08.11 - 17:28

 

As escolas estão todas longe do Ministério da Educação.

Tão longe como se fosse noutro país. O país chamado realidade. O país onde moram as famílias a quem as escolas públicas dizem não ter vaga para os seus filhos.

E de repente, no Portugal de agora, parece que a escola obrigatória choca consigo mesma e afinal a rede pública parece não comportar todos os alunos. Só na D. Dinis são 60 os alunos sem lugar, sobretudo no 5º ano, alguns residentes na área de influência e provenientes de escolas do mesmo agrupamento.

Que não haja confusões: a decisão de acabar com os privilégios dos colégios privados nos locais onde a rede pública pode dar resposta, é uma excelente decisão e só peca por tardia. Aliás é daquelas coisas que nos leva a pensar “mas como foi possível durante tanto tempo a rede privada sobrepor-se à pública?”.

Agora, como explicar a falta de vagas nas áreas de residência e a falta de uma estrutura local que coordene a oferta das diferentes escolas. Então mas antes de tomar uma decisão desta envergadura não ficou assegurado que a rede pública tinha lugar para todas as crianças no local onde residem?

Gelo só de pensar que foi a mesma equipa que permitiu o descalabro do computador Magalhães, uma ideia magnífica que esbarrou na realidade e ficou envolta em polémicas, atirando um preciosíssimo recurso – a possibilidade da literacia digital logo no 1º ciclo – para a venda de monos no OLX e na Feira da Ladra…

O Magalhães – desde erros de português num dos programas educativos, a formadores russos que os professores não entendiam, até salas de aulas sem tomadas para ligar 20 portáteis em simultâneo e sem Internet, ou assistência técnica – o Magalhães encontrou de tudo. Tudo o que ditou a sua ruína. E a gota de água foi a sua fraca integração nas actividades lectivas: em vez de ser mais um recurso pedagógico, tornou-se mais um problema.

Na verdade as melhores ideias do mundo precisam todas de algumas coisas para serem operacionalizadas: conhecimento do terreno, bom senso e capacidade técnica.

E, sistematicamente em Portugal, o conhecimento do terreno parece uma coisa tão difícil de obter dentro de um Ministério como um rico entrar no reino dos Céus.

Este afastamento entre quem decide e a realidade gera aquilo a que estamos a assistir: alunos sem vagas nas escolas da área de residência. Mas não foi por isto mesmo que os colégios privados com contrato de associação nasceram?

Um aluno sem lugar numa escola é inimaginável no Portugal de hoje, portanto as soluções terão de aparecer até Setembro; como as escolas não aumentam a sua capacidade física por milagre, suponho que até lá o sistema de desdobramento – com alunos a terem aulas sobretudo no período da tarde – pode estender-se a mais escolas ou cada vez mais alunos ficarem longe das suas casas, ou as turmas ficarem gigantescas ou, ou, ou…

Repito: oferecer a todas as crianças a possibilidade de se tornarem info incluídas através da oferta de um portátil e acabar com a redundância da oferta escolar entre público e privado, tal como a oferta de manuais escolares no 1º ciclo, são três excelentes medidas, de justiça inquestionável.

Mas – se os portáteis acabam esquecidos sem nenhum préstimo na sala de aula, se os alunos afinal não têm lugar na rede pública na sua zona de residência e se é impossível devolver os manuais em bom estado – como chamar boas a estas ideias?

Boas ideias são ideias que que mudam um país, que agregam valor aos seus habitantes, que se tornam motores de desenvolvimento.

Boas ideias são forjadas em cima do conhecimento da realidade, bom senso na aplicação e capacidade técnica.

Em Setembro, no arranque do ano lectivo, vamos ver como fica o mais importante país do mundo com tantas boas ideias.

O país chamado Escola.