Um milionário português

por Rufino Fino Filho | 2014.03.18 - 09:50

Um ladrão de galinhas foi apanhado em flagrante pela GNR e levado para o posto, onde o sargento o interrogou com um ar deveras ameaçador.

(A gravação deste diálogo foi roubada da secretária do comandante do posto).

Polícia – Que vida mansa, hein, vagabundo? Estás f…..! A gamar galinhas para ter o que comer sem precisar trabalhar. Vais para a cadeia!

Ladrão – Não são para mim, não. São para vender.

P– Pior, minha besta! Incorres ainda nos crimes da venda de artigos roubados, concorrência desleal com o comércio estabelecido e transporte de animais vivos sem licença. És um sem-vergonha!

L – Mas eu vendo tudo mais caro! Não faço concorrência a ninguém!

P – Mais caro?!

L – Sim! Espalhei o boato que as outras galinhas eram doentes e as minhas não, e que punham ovos brancos enquanto as minhas punham ovos castanhos.

P – Mas eram as mesmas galinhas, ó imbecil!

L – Pois, mas eu pintava os ovos das minhas galinhas!

P – Que grande filho da puta !…

(Não é todos os dias que se apanha um ladrão de galinhas, ainda por cima, inteligente ! )

P – Ainda bem que vais preso. Se os donos dos galinheiros te apanhassem, davam-te cabo do canastro!…

L – Já me apanharam alguns mas fiz um acordo com eles. Comprometi-me a não espalhar mais boato sobre as galinhas deles e eles comprometeram-se venderem-me todos os seus ovos, que eu pinto, para ficarem iguais aos meus. Depois, convidamos outros donos de galinheiros a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Neste caso, um ovigopólio.

(Aqui, o sargento falou num tom mais baixo, quase denotando um pouco de respeito.)

P – E o que você faz com os lucros do seu negócio?

L – Especulo com dólares, invisto alguma coisa no tráfico de drogas, comprei o presidente da câmara, alguns deputados e dois ou três ministros, consegui a exclusividade nos abastecimentos de galinhas e ovos para programas de alimentação do governo nas escolas e cadeias, e superfacturo os preços.

(Nesta altura do interrogatório, o sargento mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável ou se ele preferia uma almofada)

P – Caro doutor! Não me leve a mal que pergunte: mas com tudo isso, o senhor não está milionário?

L – Várias vezes milionário! Sem contar o que eu sonego ao IRS e o que tenho depositado ilegalmente nas offshores no estrangeiro. Mas também vou dando para o futebol e para os bombeiros cá da terra. E, às vezes, prás festas da aldeia.

P – E, com tudo isso, o senhor, continua a roubar galinhas?

L – Às vezes. Sabe como é!

P – Não sei não, querido amigo. Explique-me!

L – É que, em todas estas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa: a adrenalina, o risco, entende? Aquela sensação de perigo, de estar a fazer uma coisa proibida e da iminência do castigo. Só roubando galinhas me sinto realmente um ladrão, e, isso é excitante. Como agora fui preso, finalmente vou para a cadeia. Vai ser uma experiência nova!

P – O que é isso? O senhor não vai ser preso, não! O caríssimo é um mago da economia e a pátria precisa de si! Há muito pior à solta!

L – Mas fui apanhado em flagrante a saltar a cerca do galinheiro!

P – Sim. Mas o meu bom amigo é um delinquente primário – se é que se pode chamar um delinquente – e esses antecedentes não são nada, valha-me Deus! Devemos todos reconhecer o bem que faz e que está a dar ao país o melhor de si! Nem pensar!

L – Mas e então?

P – Então? Nada! Será que V.ª Ex.º não precisa de um sócio ?…