Um discurso que não seja infantil, por favor!

por Norberto Pires | 2015.08.21 - 11:11

Prestei atenção a dois ou três momentos das “rentrée” políticas que se fazem em Portugal. São patéticas (no Pontal, por exemplo, a jornalista da SIC Notícias dizia que Paulo Portas iria fazer o aquecimento, ao bom estilo dos festivais musicais de verão, para o discurso do líder Pedro Passos Coelho), sem nenhum conteúdo e tendem a dizer que os eleitores são todos infantis e encaram as escolhas políticas como um jogo de futebol, em que cada um tem o clube do seu coração. O líder da coligação PSD/CDS pediu um resultado “politicamente inequívoco” como consequência de uma escolha feita com “a cabeça e com o coração” sem “azedume, amargura ou ressentimento”. O PS alinhou pelo mesmo diapasão e pede maioria absoluta, numa confusão de mensagens em cartazes, militantes que estão mais interessados noutras eleições (as presidenciais, por exemplo, ou então as internas do pós-legislativas) do que na construção de uma alternativa de Governo, apesar do esforço sério (e algo ingénuo) de apresentar modelos econométricos, de fazer contas e antecipar impacto das políticas que defendem. A infantilidade chegou ao ponto de ver uma ex-presidente do partido a anunciar que seria candidata a Belém ao mesmo tempo que o líder dava uma entrevista na SIC, ou de apresentar compromissos de criação de emprego (207 mil até final de 2019), como se o Estado criasse emprego em vez de realizar políticas que criem condições de crescimento e geração de valor na economia que dê origem a novos e melhores empregos.

Seria, por favor, possível que se deixassem destas coisas e apresentassem aos portugueses razões objetivas para uma escolha consciente, racional, baseada em factos, e que tivesse compromissos sérios como base de um debate que fosse sereno (com muito menos bandeirinhas e espetáculo bacoco) e se centrasse no futuro de Portugal e dos portugueses? Compromissos daqueles em que os políticos afirmam de forma clara que se não os cumprirem, ou se desviarem deles, deixam de ter legitimidade para continuar a Governar?

Portugal foi, em democracia, governado pelos autodenominados partidos do arco da governação, descontando os tempos iniciais depois da revolução, observando-se ano após ano (salvo honrosas exceções) sempre o mesmo folclore eleitoral, sempre as mesmas mensagens infantis, sempre uma ausência de debate claro e de compromisso solene. Antes, como agora, recorre-se à radicalização e ao acicatar de medos no sentido de confundir uma escolha consciente, mas também esconder a confrangedora ausência de argumentos e total incapacidade de confronto de opções.

O resultado é o que vemos em 2015. Um país com uma dívida que aproxima dos 130% do PIB, sendo um dos países mais endividados da Europa. As metas de redução da dívida, acordadas por exemplo com a Troika, foram sistematicamente falhadas e revistas em alta em todas as 11 revisões do memorando de entendimento. Um país que só nos últimos 35 anos pediu por duas vezes a intervenção e resgate de instituições financeiras externas, a última das quais em 2011, e tem o ex-primeiro-ministro preso preventivamente. Um país com uma economia que não cresce, revelando medíocres taxas de crescimento médio nos últimos 20 anos. Como consequência (porque é a economia que cria emprego), a taxa de desemprego é altíssima, estando hoje nos 12%, e o país apresenta elevadas taxas de inatividade, precarização do emprego e desemprego jovem. Um país de “emprego político” gerido pelos partidos que colocam os seus homens e mulheres de mão nas empresas públicas, nos organismos do Estado, nos bancos privados, etc. Como resultado vários bancos faliram e o buraco que deixaram está a ser pago pelos contribuintes, o sector empresarial do Estado é mal gerido e onera anualmente o Orçamento Geral do Estado (pago pelos contribuintes) em muitas centenas de milhões de euros, as empresas privadas apostam nas relações privilegiadas (dando seletivamente emprego a ex-Governantes) para terem negócios seguros, e ruinosos (vejam-se as PPPs), com o Estado, pois afinal isso é um poço sem fundo que todos pagamos. Para cúmulo, um país que recebeu já cerca de 100 mil milhões de euros em fundos comunitários, para resolver os seus problemas de assimetrias e desequilíbrios regionais, tentando combater a desertificação populacional e económica do interior e tirar partido das imensas possibilidades do país, consegue, 25 anos depois, estar pior em todos esses objetivos porque é incapaz de uma política de desenvolvimento regional coerente que fuja dos caciques partidários regionais.

Pedia, por favor, um discurso menos infantil, até porque todos já sabem que a seguir às eleições haverá uma mudança radical e imprevisível do mundo que forçará que as promessas sejam esquecidas, que sejam agravados os impostos e seja reforçada a austeridade.

(Diário As Beiras de 21 de Agosto de 2015)

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal "Robótica". Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

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