Um avião por dia

por Elísio Oliveira | 2014.01.12 - 22:31

Nos últimos dois anos saiu, em média, de Portugal, um avião por dia com 300 portugueses em busca de uma oportunidade de emprego e de vida que o país não foi capaz de proporcionar. Foram mais de 200.000 pessoas em apenas dois anos. Se é certo que alguns emigram por opção de vida e de carreira profissional, a esmagadora maioria vai impelida pelo facto de não ter na sua terra uma oportunidade de trabalho. Naqueles aviões vai gente com a alma a sangrar. Naqueles aviões vai a nossa história recente.

Na medida em que estão a emigrar cada vez mais jovens com elevados níveis de formação, por cada avião destes que parte, sobe a idade média dos residentes que ficam, baixa o nível médio de formação da população activa e aumenta a desertificação do país. O país está-se a descapitalizar em termos humanos e está a oferecer recursos preciosos, que lhe custou formar, à sua própria concorrência internacional.

“Sobra” gente num país na proporção em que lhe falta economia. E falta economia, em parte, na proporção do que faltou em política e em visão empresarial. Não há população activa a mais, há economia a menos.

Com a economia a rodar a um nível de riqueza real anual inferior em cerca de7% do que já foi capaz há 5 anos a quantidade de postos de trabalho baixou drasticamente neste período e o desemprego duplicou.

O desenvolvimento de um modelo económico baseado sobretudo em sectores de bens não transaccionáveis, protegidos da concorrência internacional e alavancados por um endividamento insustentável das famílias, das empresas e do Estado, ao qual se juntou primeiro a crise internacional do sub-prime e depois a das dívidas soberanas levou o país a uma situação de ruptura financeira.

Em consequência, a perda de soberania governativa e a submissão da governação a critérios de tesouraria internacional, que por via da redução brutal da procura interna, da boa performance das exportações e da razia fiscal, corrigiram os desequilíbrios da balança de pagamentos e do défice primário do orçamento mas a um nível de produção nacional mais baixo em cerca de 12 mil Milhões de euros. Portugal tem hoje mais equilíbrio nos fluxos financeiros públicos e internacionais, mas é um país mais pobre, mais endividado e com mais desemprego.

Os efeitos multiplicadores dos volumes de austeridade foram subestimados, conforme o próprio FMI e o ex-Ministro das Finanças se penitenciaram.

Precisamos de investimento produtivo e de mais crescimento económico. Precisamos de mais empreendedorismo nacional e de atrair investidores internacionais que por via da sua tecnologia dimensão internacional e capacidade de escoamento dos produtos criem nos diferentes sectores efeitos multiplicadores e alarguem a nossa cadeia de criação de valor.

Dadas as dificuldades financeiras do Estado e do sector privado, precisamos de criar um ecossistema mais atractivo para o investimento estrangeiro, por via de uma fiscalidade mais estável e competitiva de menos burocracia, mais flexibilidade e melhores custos de contexto.

Precisamos de atrair grandes e bons investimentos. Empresas como a Autoeuropa, a PSA, a Nestlé, a Siemens, a Bosch, a Faurécia, etc. são estruturantes, com forte poder de arrasto em múltiplos sectores e geradoras de emprego qualificado. As pequenas empresas precisam de empresas grandes e vice-versa.

Só com combinação de capital profissional, capital tecnológico, capital financeiro, organizações mais complexas e de maior dimensão teremos uma economia mais produtiva, podemos empregar jovens licenciados, elevar o nível profissional da nossa mão-de-obra e abrir oportunidades sustentáveis para muitas pequenas empresas.

Não podemos descontinuar os progressos, ainda que lentos, feitos em termos de investigação. Em 1974 aplicávamos em investigação 0,35% do PIB e tínhamos 1.500 investigadores, em 2012 estávamos com 1,5%do PIB e 50.000 investigadores e tínhamos como objectivo para 2020 3,3% do PIB. Este caminho é fundamental para desenvolver a economia do futuro e a sustentabilidade do emprego, garantir o equilíbrio das finanças públicas e manter a essência do estado social.

Um país que não gera oportunidades é um país que não se reproduz. Que 2014 seja o ano em que os aviões de saída com desempregados diminuam fortemente de frequência e que num futuro não distante comecem a vir alguns aviões em sentido contrário, em consequência de uma nova dinâmica de criação de oportunidades de trabalho em Portugal.