TURISMOFOBIA E APOROFOBIA

por José Carreira | 2017.08.09 - 08:00

 

  • TURISMOFOBIA

As manifestações de Turismofobia têm vindo a suceder-se e a ganhar dimensões preocupantes em Espanha (Barcelona, Valência, San Sebastian, Palma de Maiorca), em Veneza e em Dubrovnik (Croácia). Destaco Barcelona que ocupa a terceira posição, a seguir a Londres e Paris, quanto ao número de visitantes na Europa, e é a 12.ª cidade mais visitada do mundo.

Parece não estar em causa o turismo, o turista, mas a massificação turística desregulada que provoca efeitos perversos, desde logo, na vida quotidiana dos residentes nos centros históricos.  O ataque a um autocarro turístico deu ainda mais visibilidade às mensagens que vão sendo deixadas nas paredes dos bairros de Barcelona: “Turist, go home” (Turista, vai para casa); “Gaudí hates you” (Gaudí odeia-te); “O turismo mata os bairros”; “This isnt tourism, it’s an invasion” (Isto não é turismo, é uma invasão)…

Também em Portugal se começam a fazer sentir alguns ecos de desagrado quanto ao boom turístico. Convém não esquecer, como escreveu Francisco Sarsfielf Cabral: “que as receitas do turismo beneficiam hoje muita gente e ajudam o país a evitar novos desequilíbrios externos”.

  • APOROFOBIA

 “Aporofobia é um neologismo formado por composição culta: do prefixo grego άπορος, ‘pobre, sem recursos’, e do sufixo latino – phobia, e este do grego – φοβία, aversão, rejeição. Como diz Marinez Navarro (professor de Filosofia Moral), é um termo que serve para nomear um sentimento de rejeição do pobre, do desamparado, ao que carece de alternativas, de meios ou de recursos.” (site do Centro Virtual Cervantes).

Este conceito cai como uma luva na onda xenófoba que invadiu a Europa. Os imigrantes e os refugiados são estigmatizados e, sempre que possível, rechaçados, não pelas suas origens, mas, mais do que por qualquer outra razão, por serem pobres e, como tal, potencialmente perigosos.

A Europa sempre recebeu de braços abertos imigrantes, refugiados, exilados, desde que fossem detentores de prestigio e capacidade financeira. Em Portugal, muitos membros da aristocracia europeia encontraram o refúgio perfeito, durante a Segunda Guerra Mundial. Em pleno século XXI, a tradição ainda é o que era, os famosos Vistos Gold são a prova cabal: “O investimento feito ao abrigo do programa Vistos Gold atingiu 656,2 milhões de euros até julho, mais 14,8% do que em igual período do ano passado. Foram concedidas 98 autorizações de residência.”

Os media fazem capas e dão destaque ao facto de John Malkovich, Joël Santoni, Monica Belluci, Michael Fassbender, Eric Cantona e Christian Louboutin viverem em Lisboa. A ansiedade tem sido crescente com a possibilidade de Madonna também querer viver em Portugal.

Na era da globalização, investe-se forte para captar turistas, uma das potencialidades do país, e quando se começam a sentir os resultados (obviamente, nem todos positivos), queremos escolher os turistas: não queremos o pé de chinelo, mochileiro, utilizador das low coast, que usa e abusa dos hostel, gasta poucos euros…Turismo de massas não interessa… queremos segmentos altos…

Não tardará muito tempo até que um populista, simultaneamente Turismofóbico e Aparofóbico, defenda que a massa de turistas, imigrantes e refugiados sejam proibidos de pisar os espaços nobres das belas cidades europeias, a única forma de preservar o património e a tranquilidade quotidiana dos autóctones. Existirão exceções, essas recebidas com tapete vermelho, ao som das trompetas e de braços abertos para abraçar um famoso, preferencialmente artista ou desportista de elite, um prestigiado detentor de um qualquer Visto Gold, um banqueiro…

O dinheiro não compra tudo, mas quase tudo.

A pobreza não invalida tudo, mas quase tudo.

Esta coisa, de, não direi pobre, mas de alguém que não é rico poder contemplar a Sagrada Família; passear de Gôndola; entrar no Palácio do Reitor; viajar de avião; visitar o Centro Cultural de Belém; comer um Pastel de Belém não pode estar ao alcance de todos, tal como a procura de um trabalho e de uma vida melhor num país em que não teve a felicidade de nascer.