Túnicas, Fatos, Gravatas, Camisas…

por José Carreira | 2015.08.10 - 12:31

 

 

Como refere John Keane (Vida e Morte da Democracia, Edições 70) “A palavra “candidato” emerge dos dias da República Romana, onde a correspondente palavra latina candidatus queria dizer “vestido branco”. Referia-se ela a homens políticos que tentavam atrair as atenções sobre si próprios envergando túnicas brancas, o que fazia parte da sua apresentação como candidatos ao Senado.”A cor branca simbolizaria a alvura e a pureza dos candidatos, merecedores do voto de confiança dos cidadãos.

Hoje, os candidatos, ou melhor dizendo, a maioria dos homens políticos veste fatos de cores escuras e usa gravata. Mesmo as mulheres políticas, ainda que possam variar mais, também usam cores discretas, normalmente escuras, e roupas formais.

A classe política é olhada com desconfiança. A crise económica, os escândalos de corrupção e as histórias de favorecimento em detrimento da meritocracia são fatores geradores do afastamento da população e da perpetuação de um clima de desconfiança larvar.

Esconderão os fatos e as gravatas todas as maleitas que se propagam pelo mundo? A culpa será das gravatas? Terão estas peças de vestuário poderes maléficos que conduzem os homens ao abismo?

A verdade é que têm pululado figuras proeminentes, na cena internacional, que fazem do não uso da gravata uma bandeira, um passaporte para o éden, uma resposta para todos os problemas. Assim, de repente, lembro-me de Pablo Iglesias (Podemos) e Varoufakis (Syriza)…já me esquecia, seria imperdoável, o Francisco Louçã

Ao descontentamento massivo com os “engravatados”; “colarinhos brancos”; “mangas-de-alpaca”, respondem os especialistas em “mercadotecnia política”, capacitados para transformar um putativo candidato num produto de consumo imediato para os eleitores. Preocupam-se em criar um “modelo” de candidato vendável num curto espaço de tempo, alguém que aparente ser próximo das pessoas, simples, discreto, afável…

O EL PAÍS (7/07/2015) dá o exemplo de um bombeiro que contratou um especialista em campanhas eleitorais para lhe mudar a imagem. Sem gravata e com sapatilhas de desporto (atenção, as casual são insuficientes porque, em regra, são mais discretas) tornou-se presidente da sua região. Parabéns! As pessoas gostam da informalidade, do despojamento e da, ainda que apenas aparente, austeridade pessoal. Digo aparente porque todos sabemos que uma camisa pode custar mais do que um fato, especialmente se for uma camisa com “pinta”, de grife…

Por falar em camisas, o Comendador Marques de Correia (E, Expresso, 08/08/2015) decidiu viajar até Atenas na esperança de que Varoufakis lhe indicasse onde compra as suas belas camisas. Gravatas? Nem vê-las, nem quer ouvir falar dessas tiras de tecido pejadas de malvadez e ideias neoliberais. Pior do que mostrar a cruz ao diabo!

O Comendador foi, inesperadamente, descortinar o motivo que levou o proeminente economista a ser ministro de um país falido. Na sua magnífica varanda, com vista para o Pártenon, o “Varoufas”(para os amigos), entre um e outro trago de retsina, disparou: “É que eu acho que tenho umas camisas catitas e dignas de serem vistas e apreciadas por um número de pessoas que só o poderia fazer depois de ser mundialmente conhecido.”

Muitos séculos volvidos, a “embalagem” continua a fazer a diferença em ralação ao “conteúdo”.

Quero, com toda esta prosa, dizer que corremos o sério risco de termos como candidatos políticos de plástico que não são mais do que produtos formatados pelos Edsons Athaídes deste mundo, com todo o respeito pelos profissionais da propaganda, desculpem, “marketeiros”!