Trumpolim para a incerteza

por Luís Ferreira | 2016.11.12 - 20:49

 

 

Não é novidade que, em tempos de crise económica, política ou social, o povo tende a votar no candidato que diz aquilo que se quer (ou não) ouvir. Com mediatismo, troca de acusações constantes, e sem muitas medidas concretas apresentadas, eis que aparece Donald Trump, divagando na ideia do mais e melhor, através da sua máxima “Make America Great Again”. E, assim, conseguiu ele conquistar o eleitorado americano e tornar-se o 45º Presidente dos EUA.

Em Portugal, estes resultados eleitorais foram vistos com enorme e precoce alarmismo e quase parece que tremeu o chão a toda a gente, muitos sem saberem bem o porquê. A rua encheu-se de sábia conversa política e de repente nem parecemos o país que elegeu duas vezes José Sócrates, ou que pratica a abstenção de forma persistente.

Mas e na América? Será que se vive o “American Dream”? Ou será este um “American Nightmare”?

 

“Nova Iorque está de luto”

Nas ruas de Nova Iorque a desilusão é notória. A eleição de Donald Trump na noite de dia 8 para dia 9 de novembro foi, e é, motivo de insónia para a maioria da população – engraçado estarmos nós a falar da “cidade que nunca dorme”. Depois de décadas de luta pela igualdade no género, igualdade racial e igualdade de oportunidades, eis que surge uma mente louca que pretende voltar 50 anos atrás na mentalidade (talvez voltar até antes daquele memorável dia em que Martin Luther King discursou com o “I have a dream”).

Pois bem, Nova Iorque não estava preparada para isto. Aliás, podemos mesmo analisar a falta de crença na eleição de Trump, dias antes dos resultados. Vendo o índice da bolsa americana S&P500, podemos claramente observar que, desde que o FBI começou a analisar o caso dos emails de Hillary, o índice bolsista foi descendo consecutivamente (já que Trump começava assim a ganhar margem na corrida à casa Branca). De forma semelhante, na noite eleitoral, quando a CNN (canal televisivo) anunciou que Trump era o provável vencedor, o descalabro começou. A desconfiança e o receio mundial à sua eleição fizeram-se sentir, motivados principalmente pelas medidas sociais que Trump ambicionou cumprir. E nesse contexto, vimos a bolsa sofrer uma queda tão grande que abalou todos os mercados mundiais. Cumpriu-se o lema: “Estados Unidos espirram e o resto do mundo apanha a constipação”.

 

Enquadramento político e social das políticas de Trump

A fase de “Trump, o Candidato” acabou e é agora tempo de maior moderação, sobriedade e de pousar os pés no chão. Trump não terá total liberdade para cumprir os seus desejos, nem dentro do partido republicano, nem muito menos dentro do partido democrático. E por todas as suas ideias extremistas e pouco ortodoxas, durante o seu mandato estará condicionado obviamente a um rigoroso controlo por parte dos líderes das restantes potências mundiais. Além disso, associando todo este contexto à sua falta de experiência política, é claro que toda esta conjuntura poderá gerar instabilidade não só interna, mas também mundial.

Embora seja sabido que é necessária uma regulamentação mais rigorosa das fronteiras americanas, a proposta de criação de um muro ao largo da fronteira com o México é uma espécie de déjà-vu indesejado globalmente. Por outro lado, a intenção de deportação de imigrantes ilegais e o impedimento da entrada de refugiados são medidas complexas, e que colocam em causa o desenvolvimento social e toda a igualdade de oportunidades tão dificilmente conquistados ao longo dos tempos. A acrescentar a isto faltava apenas a extinção do Obamacare (serviço de saúde criado no mandato de Barack Obama para que as pessoas de baixos rendimentos pudessem ter acesso aos mínimos cuidados de saúde, sem terem que hipotecar a casa para curar uma doença). Objetivo de Trump? Cortar gastos do governo e seguir a máxima capitalista do “se quiseres, pagas!”.

 

Previsão económica para o Curto e Longo Prazo

Que Trump pode condicionar as relações económicas e as políticas internacionais, não é novidade para ninguém. Aliás, o próprio presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, afirmou que “a eleição de Trump é um risco de perturbação nas relações intercontinentais na sua fundação e estrutura”.

Após um longo tempo de promessas vagas, de insultos e de pouca objetividade, sabe-se agora que o recém-eleito insiste em medidas económicas protecionistas. Uma delas é o cancelamento do Acordo Trans-pacífico, acordo que permite o livre comércio entre alguns países de todo o mundo, incluindo EUA, Japão e Canadá. Tal medida poderá até continuar a manter viva a indústria interna e a produzir um aumento de emprego e dos respetivos salários (aumentando assim o contentamento da população). No entanto, salários maiores implicam um maior poder de compra, e, tendo o mercado plena consciência disso, podemos esperar que se dê também um aumento generalizado dos preços (isto é, inflação). Ora, se este aumento de preços for relativamente maior que o aumento dos salários, isto poder-se-á traduzir numa diminuição do salário real, e a notícia não seria assim tão agradável.

Contudo, se no curto prazo a medida já é dúbia, no longo prazo torna-se ainda mais arriscada. Isto porque uma maior inflação implicaria um aumento da taxa de juro, ou seja, um aumento no custo de financiamento. Tal aumento poderá ser nefasto à economia, uma vez que provoca o abrandamento do investimento e do consumo privado.

Não obstante, as próprias medidas sociais que Trump propõe podem também influenciar a saúde económica dos Estados Unidos. Porque colocar os imigrantes fora, obriga as empresas a pagar salários mais elevados (dado que os americanos não estão dispostos a oferecer mão de obra ao mesmo preço que oferecem os imigrantes ilegais), e por consequência, os lucros das empresas tenderão a ser relativamente menores. Mas Trump, ao saber isso, propõe combater esses efeitos através de uma diminuição de impostos para as empresas, por intermédio de uma regulamentação menos rígida. Mas será essa medida suficiente para garantir a manutenção de lucros crescentes? Será essa medida suficiente para que não haja uma desvalorização da cotação das ações das empresas em bolsa? É que, depois do descalabro na noite das eleições, a bolsa norte-americana tem fechado com valores positivos, na esperança de que Trump cumpra a promessa de unir Washington e Wall Street. Mas entre dizer e conseguir fazer…

Por fim, devemos lembrar que Trump foi eleito democraticamente e que é, queiramos ou não, a vontade de mudança de um povo descontente. Ressalvamos ainda que, apesar de Trump apresentar várias medidas para este seu mandato, a imprevisibilidade associada ao novo presidente permite apenas uma análise previsional subjetiva, e não uma observação clara e certa do futuro daquela que é a maior potência económica mundial.

 

 

(Artigo organizado por Luís Ferreira e André Cabral, atualmente aluno de Economia em Nova Iorque. A ilustração é da autoria de Mafalda Mota, estudante de Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa)

 

Luís Ferreira é natural de Ferreirim, Sernancelhe, tem 17 anos e é estudante de Economia.

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