Trabalho de Almeida Henriques no Governo não escapa à crítica

por Pedro Morgado | 2014.01.04 - 20:12

“Eu quero dizer aqui, olhos nos olhos, perante todos estes apoiantes que tive muito orgulho em pertencer a um Governo que está a recuperar o país. Recordo bem esses dois anos intensos que tivemos, as políticas que tive o privilégio de ter desenvolvido. Tive o especial gosto de coordenar um pacote de políticas de apoio às famílias endividadas na disciplina de práticas bancárias abusivas […]. É também sabido o papel que tive, e que procurei ter, na execução das políticas económicas nacionais. Gostava de pôr aqui o enfoque num programa que desenvolvemos, o programa Revitalizar, que hoje já é possível verificar como, um ano depois, os frutos estão aí à mostra: são mais de 200 empresas e mais de mil postos de trabalho que conseguimos recuperar e manter à custa de um programa extremamente corajoso que envolveu praticamente todo o Governo. […] Deixei também, com orgulho, uma marca na aceleração dos fundos comunitários que, como sabem, andavam a passo de caracol na gestão socialista. […] A minha experiência no Governo ser-me-á útil para concretizar medidas como, por exemplo, o Viseu Investe, o gabinete de apoio ao investidor e o conselho da diáspora. Viseu poderá, assim, beneficiar dos conhecimentos que hoje possuo sobre os fundos comunitários”.

Estas foram as palavras que se ouviram, em jeito de balanço, a António Almeida Henriques, atual presidente da autarquia de Viseu, acerca da sua passagem pelo Governo enquanto secretário de Estado da Economia e Desenvolvimento Regional, durante o evento que apresentou a comissão de honra da sua candidatura em setembro último.

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O ex-secretário de Estado da Economia e Desenvolvimento Regional e atual presidente em funções do município de Viseu tem, assim, uma peculiar forma de avaliar a sua atuação enquanto governante, o que nos leva a questionar se não teria o país perdido imenso com o seu afastamento de funções, a 22 abril do ano passado.

Sobre as constatações e inferências sobre si próprio feitas pelo presidente da Câmara Municipal de Viseu, com o qual trabalhou de perto, Norberto Pires, ex-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) e atual Professor Associado com Agregação no departamento de Engenharia Mecânica na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, tem, contudo, uma visão mais céptica do seu propalado trabalho, chegando mesmo a apelidar o ex-governante de “figura menor” no tabuleiro dos jogos de poder em Portugal.

“Eu não vou cultivar a inimizade com o Dr. Almeida Henriques. Durante a passagem que tive, que vou tendo, com os órgãos de poder, fui encontrando muitas figuras menores e, o Dr. Almeida Henriques é uma delas”, salientou.

Justificando esta sua visão pessoal com os critérios de rigor e de exigência a que se habituou ao longo de toda a sua vida académica, o professor sustentou que o atual presidente da autarquia viseense não reúne nem comunga dos mesmos padrões de exigência que, no seu entender, devem pautar a vida de qualquer governante da nação.

“A (minha) grande colisão com o Dr. Almeida Henriques foi mesmo essa. Eu não consigo aprovar linhas de orientação ou medidas com as quais, para além de eu não concordar, eu possa verificar que não estão bem elaboradas ou que não têm um uso racional. E isto tem que ser claro. Não pode ser uma opção ideológica: fazer isto para ver o que é que dá… Não! Faz-se uma coisa racional e com um planeamento muito sério. Isto, com o Dr. Almeida Henriques não funcionava”, acrescentou.

Referindo-se ao momento da assinatura do contrato com a Fundação Eugénio de Almeida, a primeira entidade a receber financiamento em Portugal no âmbito do Programa JESSICA, e o BPI, o professor acusou o ex-governante de ceder à tentação mediática do evento em vez de se preocupar com aquilo que realmente motivava a deslocação: a concessão de 7,1 milhões de euros para a requalificação de imóveis de elevado valor histórico, patrimonial, cultural e artístico, no centro de Évora.

“Quem está na política e em órgãos de poder não pode trabalhar para aquilo que sai nos headlines (cabeçalhos) dos jornais e para a imagem que pintam da pessoa nos jornais e nos órgãos de comunicação social”, reiterou.

O Programa JESSICA, lançado conjuntamente pela Comissão Europeia, pelo Banco Europeu de Investimento e pelo Banco de Desenvolvimento do Conselho da Europa, visava apoiar os Estados-membro na utilização de mecanismos de engenharia financeira para o financiamento de investimentos de reabilitação urbana, com recurso a fundos QREN e alavancados pelos Fundos de Desenvolvimento Urbano e da Direcção Geral de Tesouro e Finanças.

Falando das recentes afirmações de António Almeida Henriques ao Jornal do Centro, em que este se constitui como um dos co-responsáveis por uma maior atração de fundos comunitários, por ter feito duas reprogramações nas quais “o efeito foi o aumento imediato da comparticipação das taxas comunitárias, isto é, Portugal passou a ver a sua comparticipação aumentada para 85% ao contrário dos 70% que tinha anteriormente” e pelo programa Revitalizar, Norberto Pires não poupou nas palavras.

“Isso é retórica. Uma arte de mal falar mas, contudo, retórica. Efetivamente os resultados do programa Revitalizar vêem-se, são conhecidos: um fracasso total. O quadro comunitário foi negociado pelo Governo anterior e, portanto, o financiamento não sofreu qualquer influência por parte da pessoa que fez essas declarações”, sustentou.

 

Nasceu na Covilhã. Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Educação de Viseu, ocupa parte do seu tempo nas áreas ligadas às novas TIC's.

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