Trabalhar até sangrar

por Eme João | 2015.07.28 - 13:45

 

Cerca de metade da minha vida laboral foi passada não apenas em grandes empresas como administrativa, mas também em fábricas, em armazéns, passando até por um laboratório de medicamentos como operadora de síntese química.

Posso dizer que conheço relativamente bem as condições de trabalho em Portugal.

São geralmente trabalhos muito mal remunerados tendo em conta o desgaste físico a que os trabalhadores estão sujeitos.

Aqueles que eram contratados por empresas de trabalho temporário, algumas com contratos semanais, ganhavam o salário mínimo esperando sempre ficar nos turnos da noite onde se ganhava o dobro.

Numa dessas fábricas, perto de Vila Franca de Xira, fabricavam-se croissants, entre outros. Lembro-me perfeitamente das terríveis madrugadas de Inverno rigoroso. Uma das funções consistia em lavar os tabuleiros onde era colocada a massa para ir ao forno. Um grupo saía então a meio do turno, das quentes instalações repletas de fornos, e deslocava-se para um barracão praticamente ao ar livre. Aí lavavam os tabuleiros à mangueirada, com água tão gelada que se torna indiscritível.

Após umas duas horas, o pessoal voltava ao interior da fábrica. A sensação provocada pelas bruscas mudanças de temperatura era alucinante. Talvez das sensações mais horríveis que alguém possa sentir. “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

Mas como escrevi no início, também trabalhei num laboratório de medicamentos. Aqui, ganhava-se anormalmente bem. Este laboratório situava-se, também na mesma zona das fábricas.

O trabalho era duro. Na parte do “pó” e na desmineralização da água trabalhavam grupos de duas mulheres, em três turnos. Os homens trabalhavam basicamente no catalisador. Bastava alguns minutos para ficarem cobertos de pó preto e assim se mantinham até ao fim do turno.

As mulheres dividiam o trabalho. Enquanto uma ficava na coluna de desmineralizar água, fazia análises à água corrente, à dos depósitos e cuidava dos ácidos, a outra colocava o pó (parecido com terra) em sacos de 40 kg no secador. Depois de seco, este pó ficava amarelo e era peneirado antes e depois de ir à estufa. Ficando por último um pó de tal forma fino que se infiltrava na pele, que apesar de luvas e máscara, não desaparecia facilmente. As mãos eram lavadas em lixívia várias vezes em cada turno e a roupa branca impossível de usar. Com a lavagem adquiria estranhas manchas verdes.

Um dia, por acidente respirei uma quantidade considerável deste pó, no início do turno tinha pedido ao chefe uma máscara nova porque a minha já não estava em condições. Respondeu-me, “As máscaras são caras. Usa a que tens”. E nesse dia o acidente aconteceu, com a estufa cheia de pó, e o ar saturado, saí a correr para a rua. O jantar foi fora de imediato. Comecei a espirrar e julguei que me tinha constipado. Passado umas horas o meu nariz começou a sangrar, coisa extremamente rara em mim. Passaram duas semanas quando resolvi ir ao hospital da zona, que pelos vistos já sabia que isto era frequente acontecer aos trabalhadores do laboratório e me disse que não podia trabalhar com o tal pó.

Quando voltei, ao trabalho e contei às colegas, responderam-me que todos sangravam do nariz. Era normal e a remuneração era muito boa.

Como o dinheiro não é tudo vim-me embora.

Já passaram duas décadas. Não sei se alguma coisa mudou nestes locais. Aliás, tenho a certeza que uma coisa mudou certamente. Os salários e os subsídios de turno provavelmente são muito mais baixos mas as condições devem ser as mesmas.

Nasceu em Lisboa em 31/10/1966. Estudou psicologia no Ispa. Trabalha actualmente no ISS.

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