Tenho um encontro marcado!

por João Salgueiro | 2015.04.28 - 08:36

 

Nota preambular

Escrevi este texto em 2013, tendo, então, sido publicado no Diário de Viseu (de 27 de março), mas a recente notícia de que o Papa Francisco já terá confirmado a vinda a Fátima para comemorar o Centenário das Aparições levou-me a suscitar a sua divulgação no Rua Direita, pelo atualidade e interesse que possa revestir, considerando, também, a confirmação das expetativas que, desde logo, a postura do novo Papa em mim criou.

 

Reconheço que nem sempre cumpri a preceito as minhas obrigações religiosas mas, à minha maneira, nunca deixei de ser religioso e Católico.

– «Oh João, já está na hora, olha a Missa que está a começar!…».

Sim, o início não foi pacífico, a Missa realizava-se na manhã de domingo e competia com uma vontade maior de prosseguir a embalagem dos cobertores, acalentando um sono ainda não há muito iniciado. A minha mãe, lá ia insistindo, mas, a dada altura, já se tinha conformado com a ideia dos meus incumprimentos canónicos e foi ajustando o discurso às circunstâncias.

– «Pois é, estás-te a tornar num herege!…» Ou: «estás cada vez mais maçónico!…».

Por essa época, ainda nem conhecia bem o significado dos termos, mas dava para entender que era uma crítica tácita, embora resignada com as minhas práticas religiosas intermitentes e muitas vezes ausentes.

A constituição de uma vida em família marcou um reencontro com as práticas religiosas que procurei transmitir aos vindouros. A cerimónia do Crisma da minha filha tornou-se, também ela, para mim, numa festa. A Sé estava engalanada, o recém-chegado Bispo de Viseu tinha caído nas boas graças dos fiéis e a vinda dos jovens das paróquias limítrofes concorreu para fazer abarrotar a catedral e cobri-la de resplendor. Num golpe de asa e oportuna sorte, encontrei lugar numa das belíssimas cátedras do imenso cadeiral que circunda o Altar-Mor e fui-me sentindo em casa.

Vem isto a propósito das últimas notícias que ecoam de Fátima e que anunciam a vontade da presença do novel Papa, Francisco I, nas Comemorações do Centenário das Aparições, em 2017. Esta é uma boa notícia.

Com efeito, o processo de substituição do Papa, Bento XVI, despertou a minha atenção. Não só porque foi o primeiro a abdicar em vida do Papado, o que, aos meus olhos, traduz um assomo de humildade, digna de admiração, mas também pelo que considero ter sido um certo “mau-olhado” lançado pelos órgãos de comunicação social, a incomodidade aparente das entidades religiosas portuguesas e até dos fiéis, pelo menos até à Visita que o Santo Padre efetuou ao nosso país. Mesmo quando parecia que o queriam elevar, comparavam-no com João Paulo II, ofuscando dessa maneira os méritos que se propunham enaltecer.

Os dias que antecederam o Conclave anunciavam uma romaria, qual passerelle de Cardeais que se passeavam em frente das Câmaras de TV e até, pasme-se, davam lugar a Conferências de Imprensa para marcar posição.

O “Fumo Branco” apanhou-me em viagem, de regresso a casa a partir da Invicta, e a Rádio Renascença foi o meu veículo de informação: “temos fumo branco, o novo Papa já foi escolhido”, anunciava a locutora, a partir de Roma. Pouco tempo depois, O cardeal francês, Jean-Louis Tauran, comunicava: «Annuntio vobis gaudium magnum: Habemus Papam. Eminentissimum ac Reverendissimum Dominum, Dominum Jorge Sanctæ Romanæ Ecclesiæ Cardinalem Bergoglio qui sibi nomen imposuit Franciscum [Anuncio-vos com grande alegria: já temos o Papa. O Eminentíssimo e Reverendíssimo Senhor D. Jorge Cardeal da Santa Igreja Romana Bergoglio, que adotou o nome de Francisco].

“Bergoglio…”, balbuciei… e, então exclamei: «oh, este é o Cardeal argentino, aquele que circulava em Roma em transportes públicos e que alguém na TV, um destes dias, considerava que era o seu candidato secreto!»

Desde essa altura fiquei mais atento ao nome, talvez porque me soava a procedência de craque de futebol e também porque, como se dizia, teria sido o Cardeal preterido no Conclave de há oito anos atrás.

As suas primeiras palavras, após a eleição, aguçaram ainda mais a curiosidade. Através da rádio, foi audível um ahhhh… de surpresa dos milhares de fiéis que aguardavam ansiosamente na Praça de S. Pedro. Mas que foi logo seguido de fortes aplausos, como resposta às primeiras palavras de Francisco: «irmãs e irmãos, boa noite». O novo Sumo Pontífice prosseguia «como sabeis, o dever do Conclave era dar um Bispo a Roma, parece que foram buscá-lo quase ao fim do mundo! Agradeço-vos o acolhimento» e solicitou uma oração pelo «nosso Bispo Emérito Bento XVI».

Os primeiros sinais têm vindo a fazer jus ao cruzamento do caráter mendicante do nome e ao rigor de um espírito dedicado à missionação e ao ensino. A vertente proselitista da Contra Reforma aparece aqui refreada pelo regresso às origens cristãs assumidas pelos franciscanos e ora retomado por Francisco I. Pelo que parece, com o intuito de juntar o rigor do necessário reformismo de práticas materialistas e mundanas que emergem da Cúria Romana a um despreendimento humanista, rumo um universalismo democrático e à defesa dos pobres e dos mais desprotegidos que só o diálogo inter-religioso e um olhar sociológico e temporal podem tornar realidade.

São estes sinais inovadores que me fazem acalentar a ideia de que há oito anos atrás, a Igreja ainda não estaria preparada para estes ventos de mudança e a eleição do Cardeal Ratzinger foi, no contexto, uma boa escolha. Mais uma vez, o Conclave dos Cardeais terá feito a escolha certa.

Pelo que, desde já, declaro que a notícia que anuncia a vinda do Papa, a Fátima, por ocasião das comemorações de um evento tão marcante, para Portugal e para o Mundo Católico, afigura-se como sendo uma ideia feliz.

Assim, por mim, proclamo: Tenho um Encontro Marcado em Fátima, em 12 e 13 de maio de 2017. O Papa Francisco e o Bispo de Leiria Fátima – D. António Marto, que tão marcante foi para a nossa família nos seus efémeros tempos de passagem por Viseu –, concorrerem para marcação desse Encontro.