Tempo da finança

por João Fraga | 2014.02.17 - 15:45

“Precisávamos de ter a legislação do trabalho da Alemanha; “Entre desemprego e baixos salários, a opção é baixos salários”; “É impossível termos em Portugal competitividade com contratação colectiva e portarias de extensão”.

De ouvir uma “conversa cruzada” num programa de debate duma das maiores emissoras de rádio portuguesas (Rádio Renascença, 16/2/2014), transcrevo a opinião de um professor de uma “Escola de Negócios” (Business School) das mais cotadas nos rankings do Finantial Times.

Reconheço que, para além de me indignarem, deixaram-me perplexo. Então, um professor de uma faculdade das mais cotadas internacionalmente desconhece (ou não reconhece): 1) Que a legislação do trabalho da Alemanha estabelece salários muitos superiores aos pagos em Portugal (a partir de Janeiro de 2015, o salário mínimo alemão vai passar a ser de 1440,00 euros) e que confere aos sindicatos o direito a assento nos conselhos de administração das empresas? 2) A opinião do próprio presidente da República (“a competitividade em Portugal não se encontra nos salários baixos”)? 3) Que a contratação colectiva é a essência substantiva do “diálogo social” e está garantida como direito por convenções da OIT ratificadas por Portugal, pelo Tratado da União Europeia, por várias directivas comunitárias, pela Carta Social Europeia, pela Carta Comunitária dos Direitos Sociais Fundamentais dos Trabalhadores, pelo Código do Trabalho, pela Constituição da República Portuguesa?

Se calhar, até sabe tudo isto. Mas o que é que isso interessa? A sua cruzada é que isso “saia da frente” e, assim, nas suas aulas, tal como numa rádio de grande audiência como “fazedor de opinião”, provavelmente, passa ao lado de tudo isso.

O importante é que os seus alunos assimilem aquelas suas opiniões, tirem até um doutoramento para as “consolidar” e, depois, tudo segue the best way: tarde ou cedo, ingressam numa “jota”, um deles não tarda em “assessor” ou em secretário de Estado, quiçá em ministro. E aí estão as suas ideias a serem aplicadas “politicamente”.

Continuo indignado mas já deixei de estar perplexo. Afinal de contas, a “Escola de Negócios” onde o tal professor ensina não está no ranking do Finantial Times? Ora aí está! Estamos no “tempo da finança”.

Inspector do trabalho (aposentado), 67 anos, licenciado em Gestão de Recursos Humanos, com pós-graduação em Psicologia do Trabalho pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, residente em Santa Cruz da Trapa.

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