Suicídios nas Forças de Segurança!

por José Chaves | 2016.05.17 - 21:22

 

Na semana que passou houve mais um suicídio de um Agente da PSP de Beja.

Notícias destas começam a ser habituais durante todo o ano. Cada vez há mais elementos das Forças de Segurança que se suicidam, tendo-se o ano passado contabilizado quinze. De acordo com um estudo, cerca de um terço dos elementos das Forças de Segurança têm problemas de ordem psicológica – uma em cada três das pessoas que têm por missão proteger a sociedade, garantir o livre exercido das liberdades, precisa de ajuda médica, por estar a passar por graves problemas de saúde mental.

Tudo isto exige respostas urgentes. Respostas que travem esta onda que parece não ter fim. Precisamos que se reaja a este fenómeno de uma maneira eficaz, competente, técnica e sobretudo humanizada. Mas também precisamos que se faça uma reflexão sobre as causas que estão por detrás deste flagelo, perceber o que aconteceu nos últimos anos que está a fazer com que as pessoas percam toda a esperança, não apenas numa profissão que abraçaram, mas até na sua vontade de viver.

A nossa existência é feita desde o momento que nascemos, em função da preservação da espécie, nascemos com um instinto natural para que lutemos para sobreviver, desde a primeira hora que todas as nossas acções se destinam, um última instância, a preservar a nossa vida, por isso quando alguém em absoluto ato de desespero contradiz tudo o que é a sua existência, é porque algo de muito grave aconteceu, se muitas pessoas de um determinado setor também o fazem, é porque esse setor precisa URGENTEMENTE de uma reflexão profunda.

Mas que aconteceu nos últimos anos que poderá ter potenciado este flagelo?

Para além das circunstâncias inerentes ao desempenho de uma missão em que como se sabe são fortemente penalizadoras e penosas de um estado de saúde mental normal de quem jurou “Honrar todos os que tombaram, ao Serviço da Ordem, e na defesa da Sociedade, e dar a Própria Vida se preciso for”, existem decisões que poderiam ter atenuado todas as circunstâncias em que vivem os elementos policiais.

O maior fator de desequilíbrio social é a falta de Justiça, precisamos de ter decisões justas para que haja estabilidade. Ninguém lida bem com as desigualdades. Todos os conflitos, sejam de ordem laboral ou de ordem pessoal, têm sempre na sua essência, um problema de igualdade – num sentido mais abrangente: de Justiça.

Nos últimos anos temos assistido a um conjunto de decisões que agravaram estas desigualdades e por consequência decisões absolutamente injustas e que têm influência decisiva nas condições de vida dos polícias, sobretudo daqueles que passam anos, havendo já quem tenha passado décadas (isso mesmo no plural) à espera de reencontrar o seu ambiente familiar.

Em nome de um efectivo policial que se quer em número razoável a Direção Nacional da PSP, doravante DN/PSP, não se permitiu, ou pelo menos não fez tudo o que estaria ao seu alcance, para que os elementos policiais, conforme sempre constou do Estatuto, fossem para a pré-aposentação com 55 anos de idade. Isto agravou fortemente as possibilidades de transferências de polícias para os comandos do interior, levando agora, em alguns casos, mais de 20 anos, o que antes demorava metade desse tempo, com a agravante de haver uma média de idades assustadoramente elevada e incapaz de dar conta de fenómenos criminais mais violentos nesses locais. Com esta situação grave e sem que houvesse decisões que efetivamente resolvessem este problema, a DN/PSP, tenta colmatar a elevada média de idades nos comandos do interior com mais decisões, cada uma delas ainda mais injustas e penalizadoras para a generalidade dos profissionais da PSP.

É decidido então que se abriria mão de uma possibilidade constante no regulamento de transferências, as transferências a título excecional, em que, segundo a DN/PSP, se colocariam elementos de menor idade nos comandos do interior, desde que houvesse o mínimo de justificação médica. Surge então uma verdadeira avalanche imediata de pedidos neste sentido, havendo comandos actualmente com quase 20% do seu efetivo colocados a título excecional – o que era de exceção passou a regra -, com as consequências ao nível da Justiça fortemente abaladas, uma vez que, mesmo a DN/PSP faça constar o contrário, estes elementos efetivamente ocupam vaga e fazem com que outros demorem muito mais tempo a chegar aos seus locais de origem, com a agravante de desvirtuar completamente o sentido deste tipo de colocação.

Decide-se também, mais uma vez na tentativa de baixar a média de idades dos comandos do interior, colocar os Agentes recém-formados nesses comandos, durante o período probatório, com a consequência de isso impedir as colocações normais e de quem já se encontra nas listas de espera – mais uma injustiça que abala completamente a confiança no sistema e por conseguinte na motivação e saúde mental dos profissionais que se encontram nessas listas de espera, alguns há mais de duas décadas à espera de retomar a vida diária com a família.

Assiste-se à falta de concursos nas classes de Agente e Chefes, onde a sua efetivação faria com que mais elementos se movimentassem e assim as vagas nos locais de origem poderiam ser uma realidade. Todavia, nem os concursos se fazem com a regularidade e rapidez que deveriam, nem as consequentes movimentações, sobrando mais uma vez, para os que aguardam em Lisboa anos sem fim para vir para os seus locais de origem e onde a grande maioria tem a sua família.

A agravar tudo isto, temos as condições de alojamento e alimentação de que dispõem os elementos colocados em Lisboa para passar décadas da sua vida e longe da sua família. Tem-se visto pouca ou nenhuma preocupação por parte da hierarquia com esta realidade, tendo cada um dos polícias ali colocados de arranjar-se da forma que são capazes, com alguns a sujeitarem-se a condições indignas para qualquer ser humano, o que, já sabemos, além de desmotivador no desempenho da função, tem tido consequências terríveis na saúde mental dos polícias, com a agravante dos parcos recursos financeiros que dispõem para fazer face a tantas despesas – as despesas da estadia em Lisboa e as despesas de ter a família nos locais de origem – não serem suficientes.

Recentemente e a título de exemplo, na colocação dos polícias que terminaram este ano a Escola, os mesmos foram instalados em determinadas Esquadras em Lisboa, sem que a organização acautelasse as colocações internas. O resultado foi a movimentação desses novos elementos, no final de um mês, alguns dos quais já com as suas vidas planeadas ao nível do alojamento e alimentação, causando com isto danos graves na já débil situação financeira, bem como na dignidade e motivação de quem ainda agora está a começar a sua vida policial, quando a PSP sabia exactamente os momentos de cada colocação com antecedência de meses. Esta é apenas um exemplo da falta de planeamento que leva a que falte também o respeito e consideração que são devidos a quem jurou honrar e dar a própria vida se preciso for pela Pátria.

Assim, com a resolução destes problemas, os quais tanto são do interesse do elemento policial, como são da instituição PSP, como são da própria sociedade, teríamos menos revolta, menos insatisfação e sobretudo mais apoio psicológico, uma vez que este estado de coisas agrava muito a sanidade mental de quem tem de passar por todas estas situações longe do seu ambiente familiar.

Por isso não basta reagir ao fenómeno, é preciso buscar as causas do fenómeno e atalhar por aí de tal forma que se consiga estabilizar a vida de quem está ao serviço das liberdades de todos. É preciso dignificar a vida de cada um dos que garante a dignificação de todos e isso só com o respeito por decisões que sejam justas e humanizadas.

Não há liderança sem justiça!

 

Vice-presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP)

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