Solidão

por Amélia Santos | 2016.05.24 - 09:16

«Na solidão, Os instantes Superiores da Alma Acontecem-lhe – na solidão»

 

A palavra «solidão» encerra em si tristeza e sombra. Lembra abandono e isolamento. Arrasta consigo nostalgias. É estar só, com badaladas interiores de triste sina ou de sino triste, ão…ão… por muito tempo, por tempo indeterminado e indesejado… Só, mesmo quando rodeado de pessoas ou amigos virtuais…

Este tema tem sido o mote de algumas conversas com colegas e amigos e, consequentemente, tem ocupado muitos dos meus pensamentos e reflexões, ao longo dos últimos tempos, também em horas em que estou literalmente só e vivencio a solidão de uma forma muito pessoal, em diferentes estados de alma… A solidão é quase sempre encarada como coisa má, dos piores sentimentos experimentados pelo ser humano, emocionalmente devastadores e a evitar a todo o custo…

E, de certa maneira assim é, porque a solidão que nos é imposta, sem voluntariamente a termos escolhido, é, de facto, dolorosa e dolosa, destruidora da auto estima, da vida interior de qualquer ser humano, das suas emoções e da maneira como se relaciona, ou não, com o próximo. A solidão que mais motiva as nossas conversas relaciona-se com o facto de as pessoas, por um sem número de razões, ficarem repentinamente sós. Ou porque perderam alguém a quem muito queriam, ou porque se perderam a si próprias nos insondáveis trilhos que a vida nos reserva. A solidão e a depressão, desta maneira, andam tantas vezes associadas e caminham lado a lado numa espiral de desesperança e desespero…

Mas a solidão que hoje me motiva a escrever é a solidão que anda acompanhada de uma lanterna com luz, a solidão proveitosa, a solidão que, não nos sendo trágica e cruelmente imposta pelas vicissitudes do destino e da vida, nos aparece quase como oportunidade… Uma oportunidade de repensar a vida e as circunstâncias em que nos encontramos, uma oportunidade de repensar as nossas escolhas, o tempo e a forma como o usamos.

Nas Cartas a um jovem poeta, livro que li recentemente, Rainer Maria Rilke aconselha o jovem a quem escreve, a amar a sua solidão, enumerando as vantagens de estar interiormente só e sublinhando ser este um estádio elevado do crescimento e maturidade humana. Esta leitura ajudou-me a reorientar os meus pensamentos e a valorizar a solidão de outra maneira…

Porque é fundamental que tenhamos momentos de solidão ao longo da vida. Que estejamos a sós connosco, com os nossos pensamentos e as nossas fraquezas. Com a nossa ausência, com a falta que não fazemos aos outros. Até porque, como diz o povo, às vezes é melhor estar só que mal acompanhado… e Nietzsche completa de forma cáustica “odeio quem me rouba a solidão, sem verdadeiramente me oferecer companhia”.

Não é por acaso que algumas pessoas referem que uma experiência extraordinária de autoconhecimento é andar sozinho, dias e dias. Numa cidade desconhecida ou no meio de caminhos como o de Santiago, sem falar com ninguém que conheçamos. Só nós, a nossa coragem, os nossos medos e o silêncio. Os vários silêncios. Este exercício de solidão há-de ser das vivências mais incríveis, mais enriquecedoras do ponto de vista da nossa personalidade e da forma como estamos e vemos o mundo, permitindo-nos encontrar sinais do que fomos e daquilo que já não queremos ser.

Fernando Pessoa disse que “enquanto não atravessarmos a dor da nossa própria solidão, continuaremos a buscar-nos em outras metades. Para viver a dois, antes é necessário ser um!”

Este será também um exercício de preparação para outras solidões que a vida nos impõe, nomeadamente a que nos invade já nos derradeiros dias, em que os mais próximos vão desaparecendo e onde as alternativas à depressão são escassas…

Os instantes Superiores da Alma Acontecem-lhe – na solidão – /Quando o amigo – e a ocasião Terrena /Se retiram para muito longe – /Ou quando – Ela Própria – subiu /A um plano tão alto
Para Reconhecer menos /Do que a sua Omnipotência – /Essa Abolição Mortal /É rara – mas tão bela /Como Aparição – sujeita /A um Ar Absoluto – /Revelação da Eternidade /Aos seus favoritos – bem poucos – /A Gigantesca substância /Da Imortalidade
(Emily Dickinson, in “Poemas e Cartas” Tradução de Nuno Júdice)

 

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996) Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008) Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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