Sobre a pobreza

por Alexandra Azambuja | 2019.05.10 - 22:42

Há muito tempo que o mundo é dominado por homens. E por homens com características que lhes permitem chegar à liderança. E, no nosso tempo, na sua esmagadora maioria, homens que dominam duas áreas do conhecimento: Direito e Economia.

Sobra à evidencia que o mundo é mal governado. A distribuição da riqueza é infame, o sofrimento inútil continua a existir e a ser inútil e injusto.

A corrupção continua um mal enraizado e os motivos não mudam: invariavelmente vende-se a alma ao diabo para ter coisas. Carros caros sobretudo. Um carro caro significa prestígio porque é a prova evidente e ostensiva do “sucesso”, sendo que “sucesso” é ter aquilo que a maioria das pessoas não pode ter – leia-se “eu sou mais esperto, forte e poderoso que o vizinho, logo sou melhor e a prova está aqui nas centenas de milhares de euros de circuitos electrónicos, design, motores silenciosos e estofos inteligentes que me obedecem”. Mas a corrupção não se alimente apenas de carros; as casas, as viagens, os barcos, as refeições e viagens exclusivas, no fundo, um mundo paralelo onde apenas uns poucos acedem, é a marca terrena dos “vencedores”, mesmo que para isso – como é comum nos casos de corrupção – se tenha de roubar, prejudicar, esfolar vidas alheias.

Mas se a competição é o ímpeto da vida que nos trouxe desde as trevas até aos nossos dias, seleccionando os “melhores”, hoje somos capazes de reflectir enquanto espécie amarrada num tempo e num planeta comum, sobre o que é ser “melhor” e ser “vencedor”.

A coisa comum – do bairro à escola – da cidade ao continente, a coisa comum é o que nos falta. Tal como as famílias desavindas que se unem quando alguém tomba numa cama de hospital, tal como as tropas inimigas que ambicionam as tréguas de uma noite de Natal, o mundo todo tem coisas em comum – qualquer que seja o tempo ou geografia – a saber: uma busca incessante pelo prazer e a felicidade, a fuga infindável à dor, a todas as dores.

Olhando para o mundo – que extraordinário percurso fizemos da alvorada do tempo até hoje!

Do animal ignorante que olhava assustado uma tempestade, “evoluímos” para o animal arrogante que provoca a tempestade.

E agora que temos a casa comum em perigo, continuamos a guerrear-nos como se o tempo fosse infinito, os recursos inesgotáveis, a água potável para todo o sempre e o ar respirável, um dado adquirido.

É pois sobre a pobreza que devemos ocupar-nos. Não apenas a real, objectiva de quem teve por infortúnio não nascer no lugar certo à hora certa, mas da pobreza geral que enquanto espécie nos ataca e permite que – tendo o conhecimento humano chegado tão longe – deixemos a apenas duas disciplinas e um género, o rumo dos países e do planeta.

Já sabemos que o Direito e a Economia não chegam para decidir bem sobre o mundo.

É tempo de pensar novos modelos de governança, aqueles onde mais áreas são chamadas a dar um contributo. E aqueles onde as mulheres e a sua empatia, como a da primeira-ministra da Nova Zelândia mostrou, aplacam a violência.