“Só salvando o Euro e a Grécia, salvaremos a Europa”

por Marco Almeida | 2015.01.30 - 13:20

 

 

A vitória do Syriza na Grécia é um sinal histórico de mudança para a Grécia e para a Europa. É uma reconhecida lição do funcionamento da democracia, como teremos de reconhecer, incluindo aqueles que tudo fizeram para intimidar e condicionar o voto dos gregos.

A Grécia ergueu-se contra a humilhação e o sofrimento que lhe têm sido impostos e veio dizer que quer um caminho alternativo. É um inelutável choque democrático para uma Alemanha que hoje domina e insiste em dominar a Europa pela força do dinheiro, pelo abuso de posição dominante, cavando um fosso entre o centro-norte e o sul, ao arrepio de qualquer sensibilidade social. Mas importa que esta escolha dos gregos se consolide num verdadeiro terramoto político para acelerar o abandono do fanatismo austeritário, que tão devastador tem sido para a Europa e para a democracia na Europa.

O reconhecimento do falhanço da receita austeritária já está explícito no programa de investimento que a comissão Juncker acaba de lançar e que implica uma leitura flexível do chamado pacto orçamental. E já está explícita nas medidas que o Banco Central Europeu finalmente anunciou, uma injecção de liquidez na economia por via da compra indirecta de obrigações do tesouro aos estados membros da zona euro, fazendo uma interpretação extensiva do seu próprio mandato, apesar da oposição da Alemanha.

Mas agora tudo vai depender do respaldo que o novo governo grego venha a encontrar na Europa e, em particular, nos países que mais estão a sofrer com a crise. Há pouco mais de uma semana, o já empossado primeiro-ministro Tsípras, dizia que a mudança tinha que vir dos países do sul. Muito do que acontecer daqui para a frente, e espero que o Syriza saiba estar à altura das suas responsabilidades, no governo de Atenas mas também na governação da própria União Europeia, vai depender da forma como os governos de outros países do sul da Europa venham a atuar, porque estão também a ser fortemente afetados pela crise.

E se do governo Passos Coelho-Paulo Portas não temos nada a esperar,  a não ser a melodia ilusória de que Portugal está no bom caminho, é imperativo que se faça ouvir a voz da oposição portuguesa, de modo esclarecido, sobre a narrativa  falaciosa, expondo os reais efeitos da crise em Portugal e acompanhando com atenção a mudança que Tsípras quer promover.

Nada vai ser mais central do que decidir o que fazer à divida soberana que na Grécia, como em Portugal, aumentou exponencialmente com as Troikas do austeritarismo e do empobrecimento .

Só a Grécia pode saber se vai precisar de novo perdão para uma dívida, totalmente impagável (superior a 170% do PIB). Já Portugal precisa urgentemente de renegociar a sua divida (superior a 130% do PIB) e que constitui um arrasador falhanço do esforço feito pelos portugueses para sair da crise .

A solução não pode mais ser casuística. Deve ser europeia e reforçar, em vez de enfraquecer o euro.

Precisamos de um fundo europeu de redenção para gerir e amortizar coletivamente as dívidas públicas europeias. Não podemos deixar que se empurre para fora da União Europeia a Grécia, como alguns malevolamente desejam. Só salvando o Euro e a Grécia, salvaremos a Europa