Sernancelhe. Carregal – Casa onde nasceu Aquilino

por Alberto Correia | 2016.03.11 - 17:21

3 – A CASA – Ao jeito de um ninho

Sernancelhe. Carregal – Casa onde nasceu Aquilino

 

A casa em que nasci, Marianinha,

Está voltada a Su-sueste

E tem à frente um cipreste

De atalaia à seara e à vinha.

 

 Casa antiga, descaiada.       

Se o sol bate na fachada

 Inunda-se a varanda de alegria;

Tia Rita fia na roca

E dos buraquinhos da alvenaria

Salta pardal com pardaloca.

             In O Livro de Marianinha. Lengalengas e toadilhas em prosa rimada, 2.ª edição,

                 Bertrand Editora, Venda Nova, 1993, p. 11

 

 

A casa tinha jeito de ninho porque um dia, como as aves, também dela se voava.

Lareira acesa na madrugada. O manso bulício dos passos. Azuis de fumo soltos da chaminé. Réssegas de sol a entrar pela janela. Chilreio de pardais. Histórias contadas de lóbis-homens, mais de bruxas que de fadas Um grilo a cantar, noite fora, ao borralho, como pastor de flauta.

A sala grande, a Senhora da Penha de França colada no frontal, as tábuas de castanho a estalar e as visitas que chegavam em dia de festa, o Compasso, mulheres de lenço e os homens que tiravam, respeitosos, o chapéu.

O quarto de dormir, resguardado. A colcha de lã herdada dos avós enfeitada com coroa de rei ou monograma, a cama de madeira trabalhada, o lavatório de ferro de três pés e a bacia de louça enramada, e a arca de couro e pregaria, raminhos de alfazema perfumando o enxoval.

E a janela aberta para o quintal. Vasos de craveiros plantados pela mãe. E o cipreste que olhava, deslumbrado. Céu azul. Borboletas voando. Passaredo.

E o pátio térreo, resguardado. O balcão de pedra e os degraus que saltava aos pares. Portal escancarado anunciando sobre o longe um mundo novo. E o olhar voando, primeiro, como o dos pássaros antes de saltar do ninho.