SERNANCELHE. A CELEBRAÇÃO DA CASTANHA

por Alberto Correia | 2015.10.21 - 09:34

 

SERNANCELHE! Chamamos-lhe “Terra da Castanha”, que isso quis a Natureza desse chão de encostas voltadas ao vento Norte que lhe bafeja a ramaria dos soutos quando a neve demora o seu pouso sobre aquela inocente nudez dos Invernos, quando sopra como brisa ligeira sobre o tempo do rebentar da folhagem nas vergônteas leves de Maio a abrir e o ritmado bicar de um pássaro cavando seu ninho, quando o esplendor do Estio faz recolher na sua sombra a sesta dos segadores, quando, adejando a modos de asa aveludada, sacode dos ouriços abertos de maduros uma bênção de castanhas despejadas às mãos-cheias.

Terra da Castanha! Pão de toda a gente pelo correr de toda a História, rendas de senhores, fidalgos, abades, mosteiros, pão de lavradores medido às rasas, fortuna de pastores deambulando com o gado, esmola de romeiros, bornais de pedintes por mãos de mulher acogulados. E ainda sobras para os gaios e outros bichos do monte, todos irmãos dos homens todos, mesmo que estes, tanta vez, o não queiram.

Terra da Castanha! É tempo de festa! Semelha rubis ao sol a mágica cor das castanhas martaínhas, ouvem-se risos de raparigas pelos soutos cujo chão o sol do Outono sombreia com malha de ouro, lembram-se as tulhas antigas e o remanso das noites solto sobre as moradas abonadas de pão, enceta-se em breve o tonel do vinho novo, lembram-se os “magustos” do tempo dos avós, S. Martinho, fogos rituais ardendo na penedia das eiras, espalha-se o cheiro bom das castanhas assadas agora com gestos novos, mas sabe bem, sabe ao antigo essa castanha abençoada e um homem, se for poeta e se for bom, há-de alongar os olhos sobre essa terra plantada de castanheiros e se for crente, mesmo que seja de deuses antigos, há-de lembrar, numa oração, essa Terra-Mater, essa Terra-Mãe que o é de todos, por igual. Em SERNANCELHE!