Serão as Cavalhadas de Vildemoinhos uma festa em honra de Baco?

por Carlos Cunha | 2015.06.09 - 10:33

 

 

Historicamente, as Cavalhadas de Vildemoinhos são um cortejo que se realiza anualmente para agradecer a proteção que S. João concedeu aos moleiros trambelos nas querelas que travaram contra os agricultores pela posse da água do rio Pavia.

Naquela época, a água do Pavia era essencial ao funcionamento dos moinhos, porque sem esta os moleiros trambelos não podiam moer a farinha com a qual se fazia o pão, que há cerca de três séculos e meio, começava a rarear em Viseu, tornando-se mais caro e pouco acessível à maior parte das bolsas populares desse tempo.

Olhando para o atual estado do rio Pavia poucos se atreveriam a imaginar que aquela água um dia fora imprescindível para se fazer o produto mais afamado e conhecido de Vildemoinhos: a broa. O outro símbolo de maior destaque de Vildemoinhos é o campeão olímpico da Maratona de 1984, em Los Angeles, o mundialmente conhecido Carlos Lopes.

Vem tudo isto a propósito do cartaz de promoção das Cavalhadas de Vildemoinhos do corrente ano, quando olhamos para o mesmo, constatamos que a broa trambela foi reduzida ao tamanho quase insignificante de uma carcaça de trigo, vulgo papo-seco, em contrapartida é dada grande ênfase a uma bojuda taça de vinho tinto.

Impõe-se, portanto, a pergunta: mas o que é que o vinho tem a ver com a tradição das Cavalhadas de Vildemoinhos?

Através de uma breve análise histórica, rapidamente se conclui que a contenda dos moleiros não era pelas vinhas ou por uns almudes valentes de tinto ou branco, mas sim pela água do Pavia, sem a qual não podiam pôr os moinhos a funcionar.

A autarquia viseense é talvez o principal patrocinador deste evento secular, que atrai inúmeros visitantes e que muito prestigia a cidade, por isso, decidiu, ao arrepio da tradição, que o vinho jorraria, este ano, pelas Cavalhadas de Vildemoinhos.

O mais estranho é que se as Cavalhadas fossem de Silgueiros ainda se compreendia esta apologia vínica, mas não é o caso.

Promover Viseu através do vinho tem sido um dos motes deste Executivo, nem que seja a martelo como parece ser o caso vertente.

 

Carlos Cunha é militante do CDS-PP de Viseu e deputado na Assembleia Municipal. Licenciado em Português/Francês pela Escola Superior de Educação de Viseu concluiu, em 2002, a sua Pós Graduação em Educação Especial no pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa.

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