Saúde: ensaio sobre a cegueira!

por Cristina Fonseca | 2015.04.22 - 19:10

 

 

Ninguém pode invocar o desconhecimento dos problemas que assolam o serviço nacional de saúde em geral e as urgências em particular. Infelizmente já nos são familiares as notícias e reportagens da comunicação social sobre este tema. Creio até que não haverá ninguém que não conheça um caso que se tenha passado com um seu vizinho ou familiar. Pessoas que em situação de vulnerabilidade não encontram respostas minimamente adequadas naqueles serviços.

Quer isto dizer, portanto, que ninguém pode invocar o desconhecimento do esgotamento e do caos que se vive nos serviços de urgência de um significativo número de centros hospitalares, em que os doentes esperam horas e horas por um atendimento médico.

Há, porém, uma pessoa que desconhece isto. Um alto responsável governativo. Esse, face a esta dura e crua realidade, disse que os serviços de urgência funcionam bem em Portugal. Trata-se do secretário de estado Fernando Leal da Cunha. Esse não viu as mesmas reportagens que os portugueses viram!

E o que os portugueses viram e veem é um caos. Não adianta tentar tapar o sol com a peneira, dizer que tudo se deveu ao pico da gripe. Nada disso, trata-se é de um problema estrutural, um problema de incapacidade de resposta, um problema de gestão política, pois passado que está esse pico os problemas mantêm-se. O congestionamento nas urgências dos hospitais continua.

Impõe-se, pois, o retorno ao debate sobre este grave problema. É uma exigência de todos os estudos e dados diariamente publicados, quando nos dizem que 40% dos portugueses não consegue fazer face às despesas de saúde do seu agregado familiar e que um em cada cinco portugueses deixou de ir ao médico por dificuldades financeiras.

Impõe-se trazer de novo este tema a debate porque sabemos que as urgências do nosso centro hospitalar também não escapam a este quadro de estrangulamento. Ou não será do conhecimento dos viseenses a falta de condições físicas da urgência geral, sendo sabido que as últimas obras datam de há mais de uma década, momento em que este serviço dava cobertura a uma área de influência menor e, subsequentemente, atendia um número bem mais reduzido de utentes?

Impõe-se um contínuo debate porque sabemos dos alertas que têm vindo a ser pronunciados pelas ordens dos médicos e dos enfermeiros e que denunciam a falta de profissionais com repercussões na sua prestação, estando permanentemente sujeitos a níveis elevados de stress e de exaustão; denunciando, ainda, a precarização da mão-de-obra com a contratação de médicos à tarefa, como se o atendimento médico se tratasse de um “trabalho à peça”. É a desqualificação dos ganhos que advêm da continuidade e experiência adquirida no atendimento entre clínico e doente e o desprezo pelos ganhos que decorrem da coesão de um trabalho de equipa.

Impõe-se o debate e uma discussão profunda porque bem sabemos da falta de equipamentos, da falta de camas, da falta de material de desgaste (sejam fronhas de almofadas, sejam fraldas, entre tantas outras lacunas), que são essenciais para assegurar as condições básicas de higiene e de alimentação aos utentes, facto que tem gerado, por parte da comunidade local, o emergir de mais movimentos de cidadania.

Impõe-se, ainda, o debate porque, tendo em conta a “Avaliação de Desempenho dos Hospitais Públicos”, o nosso centro hospitalar, considerado o quarto melhor do país relativamente ao ano de 2011, desceu para o sétimo melhor no ranking de 2012, tendo novamente descido para o oitavo lugar no mais recente ranking relativo a 2013. Não está em causa que o nosso centro hospitalar não esteja na linha da frente, sendo mesmo dos melhores num conjunto de domínios. Não estão em causa os profissionais dedicados que todos os dias colocam o seu saber, conhecimento e esforço ao serviço dos doentes, porém, se a qualidade significa ter menos mortes do que as esperadas, menos complicações e menos readmissões, importa perceber e saber ler os vários grupos de patologias que necessitam de uma intervenção e de reforço urgentes.

Impõe-se, por último, o debate e uma discussão séria sobre uma matéria já amplamente discutida nos locais próprios, sobre a qual já foi assumido o compromisso de a trazer para Viseu. Trata-se da radioterapia, independentemente de ser num enquadramento público ou privado, face à resposta inexistente do governo quanto a uma solução inserida numa esfera pública.

Não é difícil de constatar que, quase quatro anos depois, a prioridade do Governo foi a de promover a transferência do SNS para os privados, tendo aumentado neste setor o número de camas, de urgências, de exames complementares de diagnóstico e de gestão de equipamentos de saúde e de hospitais.

Não se trata de ir contra ao emergir de respostas privadas em Viseu, bem pelo contrário, porém, não podemos deixar de referir que o papel do privado é subsidiário do SNS, não é o da substituição de uma saúde para todos por outra apenas para ricos ou para quem tiver subsistemas de saúde.

O SNS nunca foi, desde a sua criação, o único prestador de cuidados. Mas compete-lhe um papel estratégico, sobretudo o de garantir que ele próprio, conjuntamente com o setor social e o setor privado, contratualizam e garantem a universalidade, a continuidade, a igualdade e a acessibilidade, a qualidade e a segurança das prestações dos melhores cuidados de saúde às suas populações. O agravamento das desigualdades sociais e o aumento dos índices de pobreza, e de pobreza extrema, exigem que sejamos capazes de ver e que, em vez de camuflarmos a realidade, sejamos capazes de reparar, como tão inteligentemente nos sugere José Saramago.

A saúde, como matéria central que é e sendo fundamental para a qualidade de vida de todos os viseenses, exige da parte do município um compromisso contínuo e um absoluto empenhamento na defesa da qualidade da prestação dos cuidados de saúde e das suas infraestruturas. Sobretudo, exigem-se do município respostas claras e objetivas quando as questões são colocadas nos locais próprios!

Poderá ser garantido aos viseenses que a prestação do serviço de radioterapia, enquadrada numa resposta privada, que visa fundamentalmente o lucro, não significará uma possível solução apenas para alguns – para os que têm um subsistema de saúde, para os que têm seguros, para os que podem pagar?

Um ensaio sobre a cegueira? Não, obrigada!

Deputada do Partido Socialista (PS) na Assembleia Municipal de Viseu

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