SAMIR NAÏR: “COMUNITARISMO”

por José Carreira | 2015.11.18 - 20:26

 

 

Hoje, ao ler o jornal El País, de 13 de novembro, fiquei estupefacto com o texto de Samir Naïr (p. 13) “El incêndio de las ‘banlieues’”.

Não dou grande crédito a teorias da conspiração. Mas há coincidências que me fazem questionar uma série de coisas…

Não deixa de ser curioso que o professor de Ciências Políticas, na Universidade Internacional da Andaluzia e na Universidade Pablo de Olavide, político e pensador francês de origem argelina, tenha publicado um texto que chama a atenção para os motivos que terão originado as três semanas de “fogo e sangue” ( de 27 de outubro a 17 de novembro de 2005) que assolaram os subúrbios de algumas cidades francesas (banlieues). Foram dias de terror que deixaram atónitos os franceses, a Europa e o mundo. Milhares de jovens, residentes em guetos miseráveis, expressaram violentamente a sua cólera e ódio, como putativa reação à morte a tiro de dois jovens pela polícia. Os “banlieues” são bombas relógio prontas a estoirar. A morte dos jovens terá funcionado como rastilho para os acontecimentos que viriam a ocorrer.   IMG_3025 (1)

Desde então, os sucessivos  Governos franceses, de direita e de esquerda, investiram muitos milhões de euros com o objetivo de  integrar estes jovens e respetivas famílias, não os deixando apenas na “mão de Deus”.

Segundo Samir, os esforços empreendidos pelo poder político e por setores empresariais terão contribuído para a redução da “fatalidade da exclusão”. Mas, na verdade, após o investimento de 48.000 milhões em 549 bairros, da eficácia na luta contra o fracasso escolar; do apoio às trajetórias profissionais; da visibilidade da sua presença mediante o acesso a responsabilidades em associações, municípios ou partidos políticos, a questão central  não terá sido alcançada. A questão central englobará dois aspectos fulcrais: a falta de inserção no mercado de trabalho e o aumento da pobreza das famílias.

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“Nos bairros pobres, subproletarizados, que representam aproximadamente 8.000.000 de pessoas, metade de nacionalidade estrangeira, o índice de desemprego é duas vezes superior à média nacional, e o nível de vida é duas vezes inferior. 51,4% dos menores vivem abaixo do limiar da pobreza, o dobro da média nacional; se, em França, 13,9% da população vive abaixo do limiar da pobreza, nos bairros classificados como muito pobres, é o triplo (38,4%).”

Dez anos depois, um estudo do Tribunal de Contas, citado no artigo espelha bem a triste realidade:

“Persistência do insucesso escolar; desenvolvimento da delinquência; do tráfico de drogas; perda de autoridade das famílias; formação de bandos de criminosos e de mafiosos(…)”

Após uma década, há um elemento novo: “a radicalização religiosa real de uma parte da população das cidades.”

Se em 2005, a revolta era fundamentalmente social e política, em 2015 a religião parece surgir como resposta à descrença e à fratura social e cultural.

O “COMUNITARISMO[1]”, apoiado no crescimento do islão radical e no tribalismo dos jovens de  origem subsariana, desembocou na “americanização” dos guetos franceses. Paralelamente, registam-se “verdadeiras guerras pelo controlo das mesquitas entre representantes dos Estados muçulmanos e clientes de organizações religiosas internacionais e integristas.”

Os líderes religiosos têm nestes bairros terreno fértil para lançarem as suas sementes, recrutando jovens, pouco qualificados e marginalizados, doutrinando-os e fazendo deles futuros mártires.

Talvez possamos encontrar nestes argumentos parte da justificação para o facto de os terroristas que fizeram os ataques em Paris serem, ao que parece, de origem francesa, ainda que alguns pudessem estar radicados na Bélgica e terem múltiplas ascendências, um deles poderá inclusivamente ser descendente de uma senhora de origem portuguesa…

O barril de pólvora está ao virar da esquina. Não vale a pena, nem é aceitável, irarmo-nos contra os refugiados – homens; mulheres e crianças – que fogem de massacres mais mortíferos, que fogem da morte.

Um beijo de bem-haja para a minha irmã que doou alguns dos brinquedos da minha sobrinha às crianças sírias que foram recentemente instaladas do outro lado da rua onde vive, em Stuttgart, num pavilhão Multiusos.

Um beijo de bem-haja para a minha sobrinha que me disse que tem duas amigas novas na turma com quem brinca e a quem tenta ensinar a falar alemão.

O medo do desconhecido soçobrou perante a vontade de ajudar o outro, de apoiar seres humanos em dificuldades.

Elisabete e Cintia, irmã e sobrinha, esse é o caminho certo, o que permitirá construir, passo a passo, pessoa a pessoa, um futuro comum e uma cidadania partilhada.

 

[1] O facto de não reconhecer outra  pertença a não ser  à sua comunidade confessional ou ética em relação à sociedade francesa.