Sabemos quem são as vítimas, desconhecemos os carrascos…

por PN | 2016.12.11 - 14:58

 

 

Num dos seus escassos livros admiráveis, “Uma Ambição no Deserto” (Antígono, 2002), Albert Cossery, escritor egípcio, com a sua refinada e cáustica ironia, tece uma alegórica tapeçaria sobre subversão e terrorismo, num emirado ao qual dá o nome de Dofa, “miserável, é certo, mas onde reinava uma paz soberana, provocada pela própria miséria”, onde havia quem quisesse “transformar num caos a maravilhosa harmonia de que gozava o emirado por causa da aridez do seu subsolo, desprovido de quaisquer recursos petrolíferos; bem-aventurada aridez que tinha mantido à distância os chacais das empresas internacionais sempre à coca de pilhagens planetárias.”

Escrevo a propósito do atentado de ontem na Turquia, que vitimou mortalmente 38 pessoas e fez mais 155 feridos e no Cairo que fez 22 mortos e um número desconhecido de feridos.

No romance de Cossery, e no ficcionado (ou não) emirado de Dofa, o xeque Ben Kadem, primeiro-ministro quer ter protagonismo no contexto mundial. Com o seu estado paupérrimo enquistado no meio dos emirados circunvizinhos, riquíssimos em petróleo, ninguém lhe liga “pêva”. Resolve então arquitectar um estratagema: simular atentados à bomba que irão ser reivindicados por uma frente de libertação criada para o efeito e comandada pelo seu chefe pessoal de segurança, pensando assim despertar a simpatia dos movimentos revolucionários mundiais e o desconforto das grandes potências que gostam de controlar todas as sublevações, a maior parte das vezes, financiando-as, “travestidos de benfeitores das nações desenvolvidas.” No seu afã de gerar “expansão económica. Protegidos por esta fórmula de bruxa malvada, os antigos colonialistas esmifravam-se por fazer perpetuar as suas rapinas, introduzindo em povos sãos – que não precisavam de possuir um carro para fazer prova da sua presença sobre esta terra – a psicose do consumo.”

Samantar, um idealista ocioso e protagonista da narrativa vai mais longe: “Vivemos no canto mais civilizado da terra porque não possuímos nada. Podemos viver tão livremente como os pássaros no céu; o governo nem dá por isso: é tão pobre que não tem sequer os meios para se preocupar com a vida dos cidadãos. Isso exigir-lhe-ia um esforço material incompatível com as suas finanças. Podes atravessar a rua no ponto que quiseres, não há passagens para peões. Mas se por azar essa raça de predadores vier pôr ordem aqui, sob o pretexto da revolução, essa liberdade perder-se-á para sempre. São capazes de instaurar passagens para peões no deserto. Será a escravatura debaixo do reinado do dinheiro.” Acrescentando mais adiante: “Na tua opinião, quantas pessoas vivem livremente no mundo? Alguns milhares, quando muito. Ou seja, os mais inteligentes.” (…) “O mundo está povoado de atrasados mentais (…) Se se deixarem enganar, tanto pior para eles. Enão me venhas com o teu discurso sobre a carência da educação! Isso não é verdade. Nos países ricos, onde a educação é obrigatória, as pessoas são ainda mais atrasadas mentais do que noutros lugares. Continuam a acreditar em tudo o que dizem os poderosos.” E contudo, a certa altura, há outra personagem, Hicham que reflecte: “Talvez tivesse chegado o momento da violência explodir sobre a terra, a violência dos pobres e dos humilhados.” Serão estas “as virtudes de um cataclismo necessário e fatal?”

Não é por acaso que três dos romances de Cossery se intitulam “Os Homens Esquecidos de Deus”, “Mendigos e Altivos” e “A Violência e o Escárnio”.

Romances de tese, onde perpassa uma comédia humana num mundo de violência, povoado por mendigos, vivendo lado a lado com países que se entredetestam sobre uma aparente e frágil unidade, onde não existem revolucionários, apenas pessoas que colocam bombas, a questão a colocar é esta: Ficção ou realidade? Ou será a realidade muitíssimo mais pérfida que toda esta ideológica ficção?

Quem põe as bombas em Istambul e no Cairo? Em Paris em Londres, em Bruxelas…? Os que reivindicam os atentados? Ou aqueles, os mandantes, que estão numa altíssima sinecura, longe dos executantes e dos executados?

Uma farsa? Responda quem sabe…

Leia Cossery, se ainda o encontrar, pois há muito está esgotado.

 

(foto DR)