Roubar em nome da Igreja? (O 7º mandamento… senhores!)

por Renata Aguiar | 2015.09.09 - 20:01

Hoje em dia, não sei dizer «de onde sou» — aquela pergunta trivial que dirigimos a quem acabamos de conhecer. A mim, essa pergunta deixa-me sempre acanhada, de tal modo que, invariavelmente, demoro mais do que parece suposto a devolver uma resposta. Posso dizer de onde sou natural, onde moro; mas o sítio «de onde sou», o sítio ao qual me sinto pertencer, esse, já não sei… Será o sítio onde cresci, onde vivi com a minha família nuclear e frequentei a escola, todos os locais onde me cristalizei como a pessoa que sou hoje ou o lugar onde verdadeiramente me sinto em casa?…

Não interessa tal dissertação para o que hoje me faz discorrer, com os dedos trémulos de indignação, sobre o teclado.

Sou natural do Sátão. A minha vida foi-se trilhando por outros caminhos e o Sátão, hoje, é apenas um sítio de raízes onde regresso esporadicamente. Reencontro colegas de escola, feitos pais e mães; reencontro rostos desfigurados pelo tempo, de juventude silenciosamente arrumada nos arquivos da minha memória, e que agora regressam para recontar as histórias de antigamente; reencontro o jardim na Praça Paulo VI, com o grande lago, hoje despido dos velhos arbustos, outrora vibrante de miúdos nas noites de Verão que brincavam à apanhada e às escondidas e que agora alberga apenas claudicantes grupos de octogenários debaixo de uma árvore mais frondosa a jogar cartas, nas tardes de verão.

Lembro-me daquela casa.

Antes de mudarmos para um apartamento na rua principal, até aos meus seis anos, vivi naquela casa. A casa onde tinham morado até então os meus pais, os meus avós, onde haviam habitado vidas de outros antes deles, onde um dia haviam sido os Correios – naquela casa no mínimo bicentenária.

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Lembro-me daquela sala onde as loiças tilintavam com o galope das corridas que a minha irmã e eu empreendíamos de uma ponta à outra da casa. O papel de parede em tons de Outono. O quartinho que servia de antecâmara ao quarto da avó Rosa e onde ouvi contar tantas histórias, antes de dormir – e talvez aquele onde a minha mãe, estupefacta, me ouviu ler as primeiras frases. A cozinha, com os armários louceiros e a mesa no centro com a pedra de mármore, onde a avó fizera nascer tantos dos petiscos que lhe granjeavam a fama de belíssima cozinheira. A cave, com as colecções de numismática e filatelia do avô Álvaro, irrepreensivelmente catalogadas naquela secretária que me parecia imensa.

Cá fora, aquele largo da Igreja onde costumávamos brincar, o pequeno jardim com aquele lago onde íamos ver os peixes sob o olhar atento do avô, para que não se repetisse a queda que a mana um dia deu lá para dentro… O corredor entre a Igreja e a casa paroquial, que fazia em resposta às nossas corridas um eco que consigo recriar nos meus ouvidos com a exactidão de ter acabado de lá passar. Ah!, as visitas à casa do Sr. Padre Albano e os mimos da sua irmã, a Menina Aninhas! A doçura dos figos que apanhávamos das árvores daquele jardim!

Aquele banco. Aquele banco onde namoraram a avó Rosa e o avô Álvaro, a mãe Romy e o pai Zé. O banco no qual o avô, no início da sua decrepitude, costumava sentar-se, a fumar um breve cigarro ou a brincar com as netas. O banco que servia de ponto de encontro às gentes que por ali moravam e se quedavam para pôr a conversa em dia, ou para antecipar a hora da missa. O banco junto ao qual se tiravam as fotografias de família, nos dias dos sacramentos religiosos, do aniversário da mana no mês de Julho ou só porque o ócio do Verão nos levava para ali e criava o cenário certo para tal.

Aquele banco era uma pedra, que em tempos encimara a entrada de uma capela em Ferreira de Aves. A capela havia ruído e o Sr. Joaquim Carreira, adquiriu aquela pedra, com um salmo inscrito em Latim. Contavam os mais antigos que ele era um homem abastado e de extraordinária cultura para o tempo em que viveu. O Sr. Carreira e a sua esposa, D. Joana, não tinham filhos e acabariam por adoptar a bisavó Natividade, cuja mãe morrera durante o parto. A bisavó Natividade casou com o bisavô Hilário (que viria a dar o nome à rua principal do Sátão, pelo trabalho que desenvolveu enquanto Presidente da Câmara, num tempo em que tal cargo não era remunerado e era realizado num gesto de benemerente serviço público), e ambos viriam a herdar a casa, onde fora colocada a pedra, em jeito de banco, anexo à parede.

A casa ficou vazia; primeiro, saíram os meus pais e nós — a minha irmã e eu. O avô faleceu no ano de 1995; e, pouco tempo depois, a avó deixaria também aquela casa, que entretanto ficou vazia. Foi-se retirando de lá o que se conseguiu, para que o tempo não destruísse o que de lá restava. Hoje, a casa encontra-se devoluta. Ironicamente, ao longo destes vinte anos, vingou naquele pequeno jardim cercado de paredes uma cerejeira, que a mana tinha plantado sorrateiramente entre as folhinhas de erva não-te-metas-na-minha-vida — e a despeito de tamanha desolação, cresceu aquela copa, como que a sorver a vida que ali se viveu ao longo de séculos.

Após tantos anos e com as filhas longe e sem promessa de regressarem ao berço, a mamã — actual proprietária da casa — decidiu, por fim, colocar a casa para venda, não sem a mágoa de quem se despoja de uma parte importante de si.

A pequena casa em frente à nossa e que entretanto foi demolida, após ter sido adquirida pela Câmara Municipal, virá a dar lugar a um pequeno parqueamento automóvel, que está a ser construído — assim me contou a mamã, por estes dias. Fomos ver como estavam a ficar as obras…

Mas, quando lá chegámos, não foi nos muros e no empedrado do parqueamento que se deteve o nosso olhar incrédulo.

Sem que a minha mãe tivesse sequer sido consultada, o banco de pedra fora arrancado da parede — e colocado na fachada da Igreja de Santa Maria, cimentado à esquerda da porta.

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Não consigo, nem remotamente, compreender como poderá alguém ter deliberado expropriar a minha mãe (parentesco este que, para o caso, é irrelevante) daquilo que lhe pertence. Evidentemente, não há qualquer registo da aquisição daquela pedra, quase dois séculos atrás, pelo Sr. Carreira. Mas, se questionarem os satenses mais antigos que ainda por aqui habitam, todos eles dirão que se recordam daquela pedra ali existir desde que se lembram de ser gente. Ali, adjunta à parede da nossa casa. Aquele banco pertence à nossa família – se não formalmente, pela existência de um documento que o comprove, pertence-nos por usucapião, por uma espécie de direito consuetudinário.

Questiono-me, de resto, quem poderá — admitindo que pudesse desconhecer o cariz privado do banco, não obstante estar implantado numa propriedade privada — ter julgado que, na ausência de um proprietário conhecido, poderia assumir a pedra como sua posse e usurpá-la dali para dela fazer o que bem entendesse.

Mais me interrogo: será a Igreja — a paróquia, a denominada Fábrica da Igreja, quem quer que represente tal instituição ­­— alheia a tudo isto? Não me parece plausível que alguém tenha decidido cimentar o banco na fachada da Igreja sem o prévio consentimento dos elementos desta. Digo mais: creio que até os paroquianos teriam desaprovado tal ideia peregrina, caso tivessem sido consultados, tão discrepante é aquela pedra de toda a restante estética da Igreja. Mas enfim, das pessoas, eu não ouso exigir sentido estético; sinto-me, contudo, no direito de esperar alguma rectidão.

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Quando lá fomos para registar fotograficamente o que se havia passado (e que, segundo quem por ali mora, se passou há cerca de uma semana, pelas mesmas mãos que executavam as obras na Casa Paroquial), cruzámo-nos com o pároco, que nos cumprimentou. Quando a minha mãe abordou a questão, o Sr. Padre foi esquivo, afirmando desconhecer que deliberação havia trasladado para ali aquela ancestral pedra com um salmo gravado. Afirmou que já tinha lido sobre ela, num artigo num número passado do jornal local Caminho; mas, à minha sugestão de que deveria ter sido consultado acerca de tal empreitada, o Sr. Padre mencionou apenas, entredentes, que só tinha ouvido falar de uma pedra com um salmo que para ali ia, mas cuja proveniência desconhecia.

Aparentemente, pelo telefonema que a minha mãe, enquanto legítima proprietária, recebeu de um dos elementos da Fábrica da Igreja poucas horas depois, tentando acalmar os ânimos, o assunto não era assim tão alheio ao pároco como ele fez entender. O registo foi o mesmo: de facto, a pedra foi ali colocada; não sabiam bem de onde viera essa decisão; a Fábrica da Igreja desconhecia que a pedra tinha um proprietário; sim, sabiam que a casa onde ela estava inserida pertencia à “Rosinha”, mas estavam longe de crer que o banco também era sua posse (e nem acharam que seria razoável questionar). E isto feito, temo que decidam também apropriar-se das janelas, ou do florão da parede junto ao portão — ou até das pedras de granito, quem sabe — por uma espécie de lógica contígua.

Aquilo que aqui está em causa não é o conteúdo, o valor material daquela pedra; é o gesto. Estou certa de que, se tivessem dialogado com a minha mãe, ela tê-la-ia cedido à paróquia. A verdade é que aquela pedra deixará de nos pertencer, assim a casa seja vendida — a menos que entretanto a removamos definitivamente de lá. O que aqui nos exaspera (posso usar o plural, em nome também da minha mãe e da minha irmã) é a falta de integridade dos indivíduos que cometeram este gesto; a desfaçatez com que saquearam um bem alheio; o despudor com que optaram por ignorar que este banco era uma continuidade de uma propriedade privada, cujo proprietário, de resto, conheciam — para se ilibarem da ignomínia que ousaram cometer.

De uma coisa estou certa: se há instituição da qual não esperava um roubo

(rou·bar

verbo transitivo e intransitivo

  1. Tirar o que está em casa alheia ou o que outrem leva consigo. ≠ DEVOLVER, RESTITUIR
  2. Cometer fraude em.
  3. Subtrair às escondidas, furtar.
  4. Rapar.
  5. Despojar de.
  6. Plagiar; dar como invenção sua o que outrem inventou.

“roubo”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/roubo [consultado em 08-09-2015].),

 

era da Igreja. Obrigada, ilustres elementos da Fábrica da Igreja, por, quer pela usurpação, quer pela desresponsabilização e incapacidade de assumir os erros, legitimarem a minha certeza de que a Igreja e Deus são duas coisas bem distintas; e por tornarem claro por que, curiosamente, quanto mais sinto que me afasto de um, mais sinto aproximar-me dos valores do Outro.

Nota do editor

Declaração de Interesses: A subscritora deste artigo é minha sobrinha. Felizmente…