Ronaldo é o ópio do povo

por António Soares | 2013.11.30 - 12:54

“De “a religião é o ópio do povo” de Marx, a “o futebol é o ópio do povo” de Millôr Fernandes, tendemos a deduzir que em Portugal assume-se mais favorável o contexto em que “o Ronaldo é o ópio do povo”, expressão que, salvo prova em contrário, cunharei em nome próprio para uso futuro.

Defendêssemos tão ferozmente os direitos dos quais nos têm vindo a privar, a injustiça social ou a exploração sem escrúpulos do Homem pelo Homem, como defendemos o actor Ronaldo da novela desportiva que são os arredores do futebol – Bola de Ouro  e afins -, e nenhum ajuntamento de pulhíticos nos amedrontava. Infelizmente, só somos bons a denunciar o senhor Blatter, a demonstrar revolta pela atribuição injusta da Bola de Ouro e a boicotar um refrigerante por ir contra um dos nossos. De volta às nossas vidas, somos demasiado brandos a denunciar actores, entidades ou marcas do nosso espaço profissional, geográfico e quotidiano.

Não é retirar mérito a um desportista de excepção; é demérito do bom senso. Do nosso bom senso. Portugal apurou-se para mais um Campeonato do Mundo de Futebol; é extraordinário, ninguém diz ou sente o contrário, mas é pouco. O país fica suspenso. As letras garrafais dos jornais abafam as verdadeiras injustiças que nos afligem a nós, cidadãos de segunda categoria.

Os pulhíticos e os corruptos agradecem. A FIFA agradece. O Ronaldo agradece. O meu tio continua sem emprego. E certamente que um vosso também.

Obrigado!”