Resoluções de 4 de Janeiro

por Silvia Vermelho | 2014.01.03 - 09:03

A 4 de Janeiro de 2012, e não no dia 01, decidi voltar para Mangualde. Voltar no sentido literal do termo, parar a minha época de migrante e regressar “às origens”.

Posso elencar uma série de razões e, na realidade, não consigo elencar nenhuma. A verdade é que eu sou “ponderada qb” e tomo certas decisões individuais, com pouca influência para terceiros, baseada na minha “intuição”, ou seja lá o que for o que chamamos a impulso. Assim foi com esta.

Dois anos depois (inacreditável!), escrevo nas vésperas de fazer uma viagem para… Lisboa. Não, não vou “voltar” a Lisboa (tão estranho que o mesmo verbo seja aqui aplicado, são “voltas” tão diferentes…), ou melhor, vou ali e já venho. Uma coisa que, durante estes dois anos, fiz dezenas e dezenas de vezes. Não consigo deixar de pensar que raio de “voltar” foi este quando não consegui, ainda, deixar Lisboa em paz.

Já me referi, várias vezes, em textos públicos, à temática da “emigração”, mas comentei apenas uma vez que me parecia que subestimávamos os efeitos das migrações que não são chamadas como tal.

Quando, aos 16 anos, saí de Mangualde para ir estudar para Lisboa, estava convencida que nunca mais voltaria a viver aqui e havia uma aceitação normal desse facto, era uma coisa natural, para mim, para os meus pais e família. Por isso, “regressar”, nunca foi uma hipótese. Preparei-me para isso, o que implicou ter-me aberto à ideia de me vir a tornar Lisboeta (se não de outra qualquer cidade no mundo). À data de regresso, já me era mais fácil encontrar pessoas conhecidas na rua em Lisboa do que em Viseu.

Regressar foi muito mais difícil que partir, talvez porque partir era, como disse, natural, enquanto regressar foi a coisa mais extrema (no sentido de “fora do plano) que fiz na vida. E aí sim, senti os efeitos da migração, em coisas tão simples como estranhar uma mão-cheia de preços mais baratos ou usar expressões que as pessoas aqui não entendiam. De facto, quando cheguei a Lisboa e ninguém percebeu o que eu queria dizer com “pão recesso”, nunca esperei vir a sentir isso na minha própria terra, com expressões Lisboetas, que é como quem diz, de mundo inteiro, do mundo inteiro que ali está vertido naquela área metropolitana.

Em Lisboa, ao fim de quatro ou cinco anos, já não era “a Mangualdense”, tal como a outra colega já não era a “Algarvia” ou fulano tal o “Albicastrense”. Ao mesmo tempo, em Mangualde, nas poucas vezes que cá vinha, era a que “estava lá por Lisboa”. Uma situação que em nada nos é estranha quando estamos no paradigma da “emigração”, mas da qual não falamos quando em causa está uma mudança “dentro de portas”.

Ao fim de dois anos a tentar estabelecer-me em Mangualde, posso dizer que estou mais perto deste objectivo, apesar de ainda me sentir “apátrida” e não saber já muito bem onde pertenço. Regressei e, com excepção dos trajectos regulares das férias ou fins-de-semana cá em cima, já não conhecia metade do comércio em Viseu ou mesmo a sinalização rodoviária em Mangualde. Mesmo sem nada parecer mudar em Mangualde, mudou a forma como Mangualde era comigo. Sete anos fora daqui, seis em Lisboa e um em Itália, e somos esquecidas/os, as pessoas “já não nos fazem cá”. Um anonimato não natural, uma pessoa de fora na própria terra.

Nunca tive problemas em adaptar-me a coisas novas, mas com este regresso descobri que não é fácil adaptar-nos ao passado. Se estes dois anos têm servido para reconhecer Mangualde e, indissocialvelmente, a magnífica cidade de Viseu, espero que 2014 sirva para sentir, de novo, que faço parte desta região e desta comunidade. E isso só se faz se tiver o tempo, a capacidade e o engenho para juntar às minhas mãos às de quem trabalham para que esta região tenha capacidade de captação e fixação das populações.

É com este balanço, e com o desejo expresso de poder servir a minha comunidade, que desejo a todas/os um excelente ano 2014.

Silvia Vermelho é politóloga, empresária e activista. Nasceu em Mangualde, onde decidiu regressar em 2012, após 7 anos em Lisboa, para onde entretanto havia ido estudar. Dedica a sua atenção nos âmbitos profissional e associativo ao Poder Local, à Igualdade de Oportunidades e à Cidadania, Democracia Participativo, empoderamento e sociedade civil.

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