Rangel – “Marcar a diferença?” Qual diferença?

por PN | 2019.03.30 - 14:35

 

Palavroso, embora com um timbre fininho irritante, Paulo Rangel agigantou-se nestas eleições europeias para vir berrar ao país, em ar ameaçador, as suas veementes críticas, de político virtuoso e impoluto.

 

Depois de uma passagem pela Assembleia da República onde conseguiu, em lato tempo, uma dúzia de intervenções de marcar a agenda, improvisadas sobre actos de oponentes postos a jeito, foi como comentador televisivo que este ténue farol parlamentar irradiou alguma luz.

Menos luminescente terá sido em Bruxelas, essa doirada sinecura onde o ócio, ao que se consta, dá para muito, sendo do conhecimento geral que alguns parlamentares tiveram tempo para tudo, desde doutoramentos serôdios a actividades extraparlamentares interessantes.

 

A Transparency International, uma organização independente que pertence à rede internacional contra a corrupção, publicou em 2018 um relatório sobre conflitos de interesses dos Eurodeputados.

Esta organização fez uma lista dos 30 Eurodeputados que potencialmente poderão ter mais conflitos de interesses em virtude de receberem quantias avultadas pelas suas atividades extraparlamentares.

Em 12º lugar nessa lista aparece o Eurodeputado Paulo Rangel, que é o único português a constar na lista, e que, de acordo com este relatório, terá recebido entre 280 e 700 mil euros de atividades exteriores ao Parlamento Europeu.

Confrontado com este relatório, Paulo Rangel afirmou que além do salário de Eurodeputado, apenas recebia remuneração como Professor Universitário e comentador televisivo.

Contudo, consultando a declaração de rendimentos que o próprio entregou no Parlamento Europeu, em Novembro de 2017, constata-se que este declara ter mais actividades remuneradas além dessas.

Nessa declaração de rendimentos fica claro que Paulo Rangel mantém ainda nessa altura a actividade de advogado, pela qual obtém rendimentos regulares e também ocasionais, declarando ainda que nos 3 anos anteriores (em que já era eurodeputado) terá recebido pelo menos 10 mil euros por mês nessa qualidade.

Esta dupla actividade era, aliás, defendida num bizarro artigo de opinião no Público, em 25 de Março de 2015, no qual sustentava que “ser deputado não acrescentava influência e poder ao exercício simultâneo da advocacia.”

A intensa actividade extraparlamentar de Paulo Rangel, além dos óbvios conflitos de interesses que levanta, poderá ser uma explicação para o seu elevado número de faltas nas sessões do Parlamento Europeu, onde está classificado como um dos deputados mais faltosos.

Posteriormente à publicação do relatório da Transparency International, Paulo Rangel apresentou uma nova declaração, da qual fez desaparecer as referências aos recebimentos como advogado, mas o facto é que à data da publicação do relatório, Paulo Rangel disse não receber aquilo que afinal o próprio declarava receber.

A Vote Watch Europe, uma organização independente e sem fins lucrativos que faz o escrutínio da actividade das instituições europeias e dos Eurodeputados, revelou que Nuno Melo faltou a 1.502 votações no atual mandato, sendo classificado em 606º no ranking dos Eurodeputados.

O que ainda não é muito conhecido é que Paulo Rangel falta ainda mais (1.651 faltas neste mandato), estando classificado atrás de Nuno Melo no ranking dos Eurodeputados (em 628º).

Ora inquestionável, apesar destes indicadores, é a sua recondução como cabeças de lista do CDS e do PSD às europeias. Provavelmente por carência de massa crítica dos respectivos partidos, ou pela influência que têm internamente, perante Cristas e Rio, aquela em frenético pré-esgotamento e esvaziamento, este farto de travar combates, na sua infindável guerra civil interna, provavelmente não querendo granjear mais inimigos, ofereceu de bandeja a Rangel este “remake”.

Estas eleições europeias e os representantes que elegermos são fundamentais para Portugal. Consequentemente, deve-se cumprir o exercício de cidadania e ir votar.

Porém, como votar em deputados “faltistas” e, eventualmente mais ensimesmados do que interessados em zelar pelos interesses do seu país e dos seus eleitores?