Raio-x a um sistema doente

por José António Antunes | 2015.02.01 - 21:08

Sucedem-se os debates nos diversos canais radio-televisivos e aglomeram-se as diferentes opiniões que exprimem as visões que cada cidadão, profissional de saúde ou utente, possuem deste sistema que nos une a todos em torno do processo saúde-doença. Administradores e administrados têm esgrimido argumentos num espadachim de golpes que procuram ser aproveitados pelos partidos naquela estratégia barata das microempresas saprófitas clonarem o bom produto original e de alta gama e fazerem um similar, mas de qualidade inferior. O nível de qualidade tem sempre o seu preço. Preço ou custo são palavras perigosas em qualquer estratégia de marketing quando se pretende vender um produto. Normalmente são termos dos quais nos afastamos, quer do custo em termos de exercício e movimento quer do custo (elevado) dos bens que adquirimos. Mas os cuidados de saúde possuem um preço e por muito que reivindicamos um sistema nacional de saúde constitucionalmente gratuito – isso não é possível. Ainda que se faça um bom marketing dos cuidados de saúde, para certos preços só determinados doentes-clientes os podem adquirir. O problema está quando esses cuidados de saúde são urgentes ou até mesmo emergentes. Que condições possuem os cidadãos economicamente mais desfavorecidos e que personificam muitos dos utentes imunologicamente fragilizados que afluem aos serviços de urgência em grande escala para pagarem a resposta que procuram como salvação da sua vida? Quase nenhuma. Pois muitos estão acamados e há muito que são dependentes de terceiros. Seria com estes que a análise do sistema nacional de saúde poderia ser feita ao invés daquela que resulta de uma maratona de relatórios, números e outros acessórios de decisão cegos e desvitalizados. De baixo para cima. Da maca para o Diretor. Da pessoa, individual, para o medicamento/tratamento. Continuar a refletir um sistema de saúde para as pessoas como se fosse um sistema alfa numérico que processa uma máquina para produzir objetos afasta a componente holística que carateriza os cuidados de saúde, cuidados humanos. Os profissionais de saúde, melhor dizendo, os profissionais na saúde (pois há quem labore num hospital e embora não possua formação em saúde contribui indiretamente para a recuperação dos doentes – sem um bom trabalho administrativo não se favorece o fluxo de informação e sem informação certa não há tratamento objetivo) não são unidades robotizadas que podem aguentar o stresse e as exigências dos serviços em tempestade como a água que chove em dilúvio no ferro que enferruja. Embora a tolerância e a capacidade de decisão tenham que estar impecavelmente engomadas na indumentária de todos, toda bata e toda a túnica rasga quando os tecidos são esticados ao máximo da sua resistência. O povo português tem sido bastante resistente e ao longo da sua história a palavra estoicismo foi desembainhada nas espadas da fundação da pátria, na navegação valente dos descobrimentos e no salazarento período da ditadura. Medalhas foram pagas com a vida dos que pereceram aos pés do escorbuto, da peste e da tuberculose à medida que a medicina foi sendo cada vez mais científica e menos tradicional. Fomo-nos aguentando até hoje. No entanto, até quando queremos pagar o custo da vida pelo preço da morte? Está em curso uma campanha de marketing agressivo que tem vindo a ser promovida por aqueles que gerem a saúde do nosso sistema de saúde que metastiza internamente uma oncologia de problemas, os quais não param de crescer. É necessário uma solução. Avança-se para uma extração cirúrgica dos decisores que não permeabilizam soluções vitais em tempo útil ou avançamos para uma terapia citostática? Provocamos uma estase nas complicações que estão na base dos erros e ineficiências, dos desperdícios e das insuficiências que ferem o sector da saúde. Faltam opções. Há feridas que desencadeiam hemorragias cuja sutura eterniza uma cicatriz. Há marcas que podem ser evitáveis quando se tomam medidas proactivas. Em contexto hospitalar nós chamamos-lhe medidas de prevenção da infeção. Evitar o contágio é muitas vezes a melhor atitude. Não se trata apenas de saber lavar as mãos em prime time com declarações floreadas politicamente ou de saber tossir para o cotovelo dos adversários, sociais. Em tempos de doença e morte, poderia imperar o bom senso e a razão que levou muitos a incorporarem em si os valores de Sócrates (o filósofo), Hipócrates ou Nightingale. Filosofia presente e à parte de egocentrismos ou popularismos, sem querer exigir responsabilidades a uns e atribuir culpas a outros, em contexto de urgência o tempo urge que encaminharmos o nosso sistema de saúde rapidamente para o raio-x uma vez que a sua triagem já foi feita várias vezes e, infelizmente, de forma repetida por diferentes agentes. Cada decisor olhou o SNS e colocou a pulseira com a cor que achou adequada. Apesar do sistema de triagem ser um outro campo discutível, cinjamo-nos de imediato aos problemas que parecem ser mais evidentes. Nesta primeira bateria de exames radiológicos encontram-se 11 problemas. Aos quais podemos acrescentar outros ou até fundir alguns mas todos interdependentes. img   O SNS está doente. Precisa de uma dieta e de suplementos que reforcem o seu sistema imunitário contra os sucessivos ataques, daqueles que formam, inclusive, a sua imunidade. Podemos comparar a doença do SNS a uma doença autoimune, em que alguns profissionais de indumentária branca são como os glóbulos brancos que atacam o próprio organismo. Além das gorduras a eliminar no desperdício de recursos e nas ineficiências característicos da Saúde, há uma dura luta a travar contra este flagelo. Implementar uma cultura de qualidade e de querer fazer mais e melhor pelo bem de todos (filosofia kaizen aplicada à Saúde), e não de apenas uma parte pode ser o início de um longo tratamento.

Enfermeiro Especialista e Docente Ensino Superior. Doutorando e Investigador em Gestão. Vice-Presidente Associação de Enfermeiros Especialistas em Enfermagem Médico Cirúrgica.

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