Rábulas da infeliz urbe

por PN | 2019.07.27 - 05:28

“Pobre é o homem se à natureza não convida para o festim.”

Agustina Bessa-Luís “O Susto” – Relógio d’Água

A doença ou malapata, tão ciclicamente como os ”ratos” de Camus, escolhe uma cidade feliz para disseminar a sua “peste”.

O vírus instala-se e deixa a boiar sem vida os peixes de um rio ora saudável, no seu ridente rumorejo jovial.

Às árvores, de uma assentada e machadada cerce, esvai seiva e, por decreto, assassina. Eutanasiadas, por sofrerem, conclui-se.

As pedras das calçadas, outrora sem mácula na sua brancura tão gaia, escurecem de luto e pejo e recobrem-se de peganhentas lágrimas do arvoredo ainda sobrante, premunido de sua triste sina.

Até os pavões, outrora impados e resplandecentes na iridescência de suas plumagens coloridas, perdido o gutural pupilar dos desafios, minguados num penar doentio de mágoa, buscam na flora abandonada o reduto para seu fim.

Viriato que a seu jeito e mito quase foi rei, audaz nas suas vírias acobreadas, é uma paródia travestido de balões, voláteis e de ar inchados, a modos de uma História esburacada como um queijo gaulês, precocemente apodrecido, que se recria em anedotário de pouco chiste, duvidosa facécia e pedante humor.

Pincel ali, trincha além, colorem-se cenários de bufonarias amargas, numa cosmética cínica de verniz estalado a deixar entrever o sarro nos interstícios das fendas que alastram.

Por todo o lado, as sobras dos homens derrotados, em dejetos transformadas, inquinam a visão na sua putridez abandonada, quási se arvorando em ex-libris do kitsch plastificado na bacoquice monumental desta “loja dos 300“.

O linguarejar dos hominídeos, se não afónico, ergue-se histérico e tonitruante na desrazão do dialecto da propaganda, do oco, do vazio, do significante tão só, perdido o significado e mero cacarejo de signo.

Ao longe, nas noites cálidas, porém, ecoam as trombetas estrídulas nos festins dos amos e dos aios e dos bobos e lacaios, erguendo taças como punhais e aspergindo libações à decadente desgraça invasora de uma cidade outrora feliz.

Paulo Neto