Quer trabalhar? Que idade tem?

por José Carreira | 2014.01.10 - 13:58

A – ” – Pensava que a minha experiência profissional, como gerente de uma loja de roupa de uma marca internacional reputada, fosse suficiente para conseguir um novo emprego. Fiquei em choque, quando me disseram que, com 39 anos, nem valeria a pena deixar ficar o currículo.

B – “- Quando disse que tenho 32 anos, nem o currículo aceitaram, só pretendiam candidatas até aos 30 anos.”

As situações das senhoras A e B foram-me relatadas na primeira pessoa.

Muitas das ofertas de emprego, presente nas diversas plataformas, refletem bem a discriminação em função da idade. O candidato poderá preencher todos os requisitos necessários, mas se tiver mais do que ‘X’ idade pode abster-se de enviar o currículo ou de tentar ser entrevistado. A discriminação pela idade é assumida, aparentemente, sem constrangimentos. As entidades empregadoras sobrevalorizam os valores associados à juventude e subestimam os valores associados à maturidade. O desemprego jovem é preocupante e deve ser alvo da nossa atenção, especialmente num momento em que a geração mais qualificada de sempre procura oportunidades noutros países, deixando o país mais pobre. Todavia, não será menos preocupante a situação de muitos cidadãos que não acedem a um novo emprego porque são discriminados em função da idade. Estigmatizam-se as pessoas com mais “Invernos” e, desde logo, com mais experiência. Sabendo que não há regra sem exceção, muitas empresas, quando colocam na balança a experiência profissional das pessoas mais “velhas”, esta fica em perda em relação à ideia de que estes terão mais vícios, farão mais exigências salariais, terão menor disponibilidade para viajar e para se adaptarem a um novo desafio.

Assistimos a uma certa esquizofrenia, ora vejamos, quando as alterações laborais preveem o aumento da vida laboral, o mercado de trabalho parece fazer o caminho inverso, isto é, encurtá-la cada vez mais.

Temos assistido, talvez embalados pelo princípio de “dividir para reinar”, a uma espécie de “guerra surda” entre gerações. É fundamental que se reflita acerca do contrato geracional. Urge, como considera Adriano Moreira, “confrontar o credo do mercado com os valores esquecidos, de regressar ao vigor das comunidades de afetos, à responsabilidade ética intergeracional, ao respeito pela vida, vivida, enriquecida pela experiência, debilitada pela natureza, apoiada na generosidade dos valores se chegar à época temível do isolamento da sobrevivência (…) “

Assistimos ao progresso da técnica e ao endeusamento da juventude. Faz-se de tudo para retardar o aparecimento das indesejadas rugas e disfarçar e/ou retardar o agrisalhamento…

Quanto ao progresso da técnica, o professor Adriano Moreira alerta-nos para uma das graves consequências: “exigindo gente mais qualificada e menos gente apressa socialmente o envelhecimento dispensando em idades não avançadas os homens que viverão mais tempo, faz da visão social de idade um fardo financeiro e não produtivo (…) “

O agrisalhamento demográfico é uma realidade em Portugal. Impõe-se um novo contrato social que tenha em linha de conta o novo contexto resultante do “Inverno Demográfico”.

NOTAS:

As citações foram retiradas do mais recente trabalho do professor Adriano Moreira: “Memória do Outono Ocidental: Um Século sem Bússola” (Almedina)

Excelente oportunidade: O professor Adriano Moreira será palestrante, no dia 18 / 01, entre as 16H00 e as 18H30, na Aula Magna do I.P.V, no âmbito da XVI Conferência PASC – Plataformas da Sociedade Civil,  a 1ª realizada fora de Lisboa sob o tema “Daqui viso eu“.