Quem Ganha?

por José Chaves | 2016.06.15 - 11:24

 

Vive-se num tempo em que tudo se faz em nome da competitividade. Hoje, mais do que em qualquer época, exige-se que todos sejam os melhores, porque só aos melhores lhes é concedido o mérito. Hoje em nome do “ganhar”, pode-se tudo, incluindo humilhar quem de alguma forma não corresponde aos padrões exigidos pela sociedade ou mesmo por um grupo de pessoas. Quem, por qualquer motivo não corresponde às exigências destes tempos, não presta, não sabe, não se precisa dele e como tal pode ser descartável…

Vivemos pois no tempo da cultura do mérito, a chamada meritocracia, que em nome da competitividade e de resultados, sejam eles económicos ou outros, se atropelam as pessoas, se faz do ser humano um mero número ou uma simples máquina que quando não corresponde ao que dele se exige, simplesmente se desembaraçam dele e o deixam entregue à sua sorte, com as consequências que diariamente vemos nas notícias, em que o ser humano é reduzido a lixo, vivendo de esmolas que, como bem sabemos, apenas reduz ainda mais a dignidade da pessoa humana.

Esta é uma sociedade em que os mais fortes, os mais capazes de produzir, esquecem e atropelam quem não pode e não consegue seguir ao ritmo deles e que por isso são apelidados de preguiçosos, mandriões e indolentes, podendo por isso ser descartáveis e jogados na valeta, afinal de contas – pensam os fortes -, não se esforçam nem são tão competentes como eles…

Os mais capazes, do alto do seu pedestal, com os desempenhos “fabulosos” que têm, esquecem quem não consegue acompanhá-los, quem é mais fraco, não se importando ou até nem se apercebendo que ao descartarem estas pessoas, estão a humilhá-las apenas porque elas não são tão competentes, colocando-se numa espécie de carrascos da dignidade da pessoa humana… Quando a sua atitude deveria ser precisamente o contrário, ter especial atenção a quem menos pode e menos consegue, não permitindo que essas pessoas fossem humilhadas, apenas porque, em determinada altura das suas vidas, não foram tão capazes como os outros. Ser capaz, ser mais forte, ter mais capacidades é também ter mais responsabilidade para quem menos pode, é ter mais sensibilidade para quem está quase a ficar pelo caminho, é integrar quem é mais fraco, ajudar a pertencer ao grupo puxando-o para cima, e não excluir e lançar essas pessoas para o abismo da solidão e da renúncia de pertencer a um grupo, ou simplesmente deixá-los resignados com as esmolas dos outros e reduzindo a nada a sua dignidade.

Esquecem estes mais fortes e mais capazes que todos, sem exceção, caminhamos para um período das nossas vidas em que mais tarde ou mais cedo seremos incapazes, não produziremos absolutamente nada e de alguma forma seremos até um estorvo para uma sociedade que tem como principal objetivo ganhar a todo o custo, o lucro, a competição e a meritocracia… Esses que hoje são muito capazes, deveriam ser os primeiros a não permitir que a sociedade ou um grupo a que pertençam, em nome de uma sede de ganhar, humilhassem alguém, uma vez que, se outro motivo não houvesse, haveria o de um dia eles serem tão ou mais incapazes como aqueles que hoje, para eles não conseguem produzir e que, segundo estes, são preguiçosos, mandriões ou incompetentes!

Seja na sociedade, seja num grupo de pessoas que se reúne por um motivo qualquer, a humilhação de quem menos pode, até por circunstâncias de momento, não pode passar despercebida aos mais capazes, sob pena deles, mesmo sendo os mais fortes, estarem a participar e a pactuar com uma das maiores indecências de um ser humano para com outro: contribuir para a humilhação de uma pessoa e assim reduzir a sua dignidade a nada!

Isto sendo papel de todos e responsabilidade de todos, é muito maior quando se trata de organizações sindicais, cujo seu fito é, entre outras coisa igualmente importantes, lutar para que todos sejam tratados de igual forma, elevando-se quem é mais frágil, integrando e fazendo participar todos no processo, sendo por isso que a ASPP/PSP enquanto sindicato de uma organização que está ao serviço de todos e para todos, nunca perdeu este objetivo de vista e é uma das suas principais “bandeiras” na atividade que vem desenvolvendo há mais 35 anos.

Ficam as questões:

Ao não olharmos para o lado ou olhando e ficarmos indiferentes, não seremos também nós indiretamente responsáveis por uma enormidade de “incidentes” que nos entram todos os dias através da televisão nas nossas casas?

Ao não darmos conta do outro, um ser humano como cada um de nós, das suas imperfeições mas também das suas necessidades, afetos e carências de vária ordem, não estamos também nós a contribuir  para uma sociedade mais desigual, egoísta e egocêntrica?

Façamos um exercício e “olhemos” para o lado: irão com certeza ver “alguém” que não é tão bom como imaginávamos mas que também é ser humano, que tem a mesma legitimidade e sobretudo o direito de ter alguns momentos de felicidade!

E haverá alguma coisa mais importante que a felicidade?

Eu não tenho a certeza se haverá coisa mais importante que a felicidade… Mas tenho a forte convicção que  a felicidade de “todos” é muito mais importante que o “ganhar”…

 

Vice-presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP)

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