Quem deve adaptar-se às circunstâncias

por Vitor Santos | 2016.01.09 - 15:11

 

 

A cultura é fundamentalmente uma herança cultural, um património que se transmite de geração em geração, a qual não é veiculada pela hereditariedade biológica, mas sim pela aprendizagem. De resto, esse património não permanece imutável: ele vai aumentando, vai-se acumulando de geração em geração, quer por generalização dos elementos existentes, quer pela substituição de outros tidos por mais válidos, que se vão introduzindo. Contudo, há sempre um certo número de traços que se perpetuam ao longo das sucessivas gerações.

Todavia, há que admitir a mudança. E, ao longo dos séculos, tem havido – embora lentas.

Do contato de duas culturas diferentes resulta um processo, isto é, uma contínua mudança numa certa direção com a sua resultante, que poderá terminar na absorção da cultura menos evoluída pela mais técnica e progressiva.

Neste processo, podem observar-se várias fases. Há sempre um constante empréstimo recíproco de traços culturais.

O processo começa com a troca ou aceitação de elementos materiais das culturas em contacto. Os elementos morais ou espirituais são os últimos a ser trocados.

A transferência de elementos não é uma simples troca ou adição. Pelo contrário, cada elemento recebido por uma cultura implica a acomodação a essa cultura. O novo elemento exerce certa pressão sobre a velha cultura, portanto leva a certa organização cultural. Se o contacto foi duradouro e os elementos da outra cultura forem superiores e de suficiente prestígio, os costumes do grupo recetor podem desintegrar-se completamente.

Os contactos sociais, que dantes eram apenas secundários e externos, hoje têm maior impacto, devido aos poderosos meios de comunicação de massas (televisão, revistas, publicidade) e sobre tudo à internet. Essa pressão verifica-se no vestuário, na música, no desporto, na escolarização, etc. O contacto com outras culturas é muito mais fácil nos dias de hoje.

Culturas diferentes quando em contacto observam-se as situações: adaptação ou acomodação, integração, assimilação.

A adaptação de uma sociedade a outra é o estado que resulta de uma, pelo menos, das duas ter de transformar um certo número dos seus traços culturais, a fim de que os contactos se façam sem demasiada fricção. Há um processo de adaptação que reveste então um aspeto dinâmico.

Consideradas em conjunto, em ambas existem excrescências que provocam redemoinhos, quando em contacto. O limiar dessas excrescências constitui a adaptação. A religião é, quase sempre, a principal.

Integração – Uma das culturas envolve a outra nas suas próprias instituições. A cultura envolvida poderá conservar a sua especificidade.

Assimilação – Mas a consequência mais provável da integração é a assimilação da cultura envolvida, fagocitada pela outra, com a perda de algumas das suas especificidades.

A mutação – A mutação não se produz forçosamente de uma maneira brusca, mas supõe uma mudança fundamental. Por outro lado, não podemos falar de mutação, quando se permanece na mesma estrutura. Não se faz inclusão.

Quem vem é que deve adaptar-se através de uma integração solidária, assimilando as regras básicas da sociedade existente com a consequente mutação de hábitos. A religião tem sido a culpada e/ou álibi para os desvios a estas etapas?!

 

Vitor Santos nasceu em Viseu no ano de 1967. Concluiu o Curso de Comunicação Social no IPV. Conta com várias colaborações na Imprensa Regional. Foi diretor do Jornal O Derby.

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