QUASE ZOMBIES

por Armando Ferreira | 2013.12.27 - 23:26

Gosto do Porto. Não do Porto pintista, mas do Porto das casas cinzentas de granito ou com a cor deslavada da velhice, das roupas penduradas na Ribeira, do Douro a chegar à Foz, das ondas a baterem nas rochas do Castelo do Queijo,… Gosto das “francesinhas”, das tripas, do asneiredo do Bolhão quando a coisa ferve,… Gosto do Porto onde passei as férias de verão estudantil e os natais familiares que se prolongaram já casado e com filho. Gosto do Porto onde esse bom rapaz, sangue do meu sangue, agora trabalha e vive. E fiquei ainda a gostar mais do Porto desde as últimas eleições. Como ouvi algures “só no Porto, carago”. Por isso, voltar ao Porto, mesmo que só por um dia, é quase sempre um dia de prazer. Desta última vez, quase Natal, não foi. Se calhar, por isso mesmo, por ser quase Natal, os sentidos estão mais despertos para ver os outros, olhar para os outros, sentir os outros. E eu vi-os e senti-os. Muito mais do que uma mão cheia. Várias, muitas, demasiadas mãos cheias de nada e de coisa nenhuma. De todas as idades. Na Batalha, acoitados pela sala de cinema que deixou de ser, em Passos Manuel, em Santa Catarina, em Sá da Bandeira, nos Aliados, em toda a parte onde haja um vão de porta mais aconchegante, tendo como mobília uma manta e um bocados de papelão e por companhia, algumas vezes, um cão fiel para quem vai o primeiro naco esmolar. Pobres, miseráveis, desempregados, embriagados, toxicodependentes, famintos, sozinhos a calcorrearem “the wild (dirty) side” da vida. Quase zombies. Diz Coelho: “Não deixaremos ninguém para trás.” Bolas, já deixaram! São centenas e centenas deles e delas que, todos os dias, estão a ficar para trás. Uns mais visíveis (já não há teto que os abrigue). Outros cada vez mais envergonhados a baterem a tudo quanto é porta assistencial. No Porto, em Lisboa, em Viseu, por todo o lado. Foi silencioso o regresso a Viseu. Não há vontade de escutar canções da rádio, quase todas de Natal. Põe-se a rodar o MP3 e aparece a voz de Léo Ferré. “La Solitude”. Que pontaria! “Le Code civil nous en parlerons plus tard. Pour le moment, je voudrais codifier l’incodifiable. Je voudrais mesurer vos danaides démocraties.”  Começa a chover. Está tudo tão cinzento. Cada vez mais cinzento.

AUDIÇÃO RECOMENDADA:

Léo Ferré – La Solitude