Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência!

por Ana Beja | 2015.09.17 - 20:48

 

 

 

 

 

Nasci em 1977. Em junho. Depois do São João. Na véspera, a minha mãe saltava a fogueira e comia sardinha pingada em broa e bebia gasosa para ajudar na digestão. Durante a noite, o meu pai muito aflito, bate à porta do quarto dos meus avós e diz: rebentou a bexiga à Bé!

Depois de alguma aventura (ou loucura) de malas, de entrar no carro, de ir para a maternidade, de sair daquela maternidade que a minha avó não gostou e dar entrada noutra, assim que a minha mãe se deitou numa maca, deu um berro e eu nasci!!! À hora do almoço já tinha mamado pela primeira vez e a minha mãe comia uma feijoada no quarto!

Vim para casa. A infância foi normal. O leite foi de lata e aos 3 meses já comia sopa com sal e azeite! Era careca mas mesmo assim levava com ganchinhos e fitinhas que as minhas tias (pouco mais velhas que eu) teimavam em colocar na minha cabeça parecida à do Ruca! Fui batizada com um vestido de renda de quase 3 metros e o meu nome foi igual ao da minha madrinha!

Cresci a brincar na terra, a fazer comida com paus e folhas das árvores, a brincar com as bonecas, a andar de triciclo, a deitar milho às galinhas. Fui para o jardim de infância aos 5 anos. Detestava beber o leite pela caneca azul de plástico. Fui logo nesse ano para a colónia de férias com os colegas do jardim. Toda a roupa era bordada com a inicial do nome. Um beijo da minha avó na despedida e um sorriso enorme à minha chegada.

Seis anos. “Escola primária. Primeira classe”. Cadeiras e mesas gastas, lareira na sala de aula (um luxo) giz e régua de madeira, também conhecida como “palmatória”. Crucifixo por cima do quadro preto e rezávamos o “Pai Nosso” antes de começar a aula. Só falávamos quando a Senhora Professora nos interpelava e nem sequer nos passava pela cabeça faltar ao respeito. “Cantávamos a tabuada”, escrevíamos 20 vezes as “palavras difíceis” e levávamos reguadas por cada erro ortográfico. Só tínhamos aulas à tarde (de manhã ficávamos em casa) e nos intervalos jogávamos à macaca, à apanhada, às escondidas e à bola com os rapazes! Tiravam-nos poucas fotografias. Não abundavam as máquinas fotográficas. O dia em que andávamos mais bem vestidos era o dia em que o fotografo ia à escola.

1986…o meu avô compra uma televisão a cores! Ainda hoje me lembro desse dia maravilhoso em que os meus bonecos preferidos ganharam cor!

Andávamos sem cinto nos automóveis, onde muitas vezes nem víamos os nossos pais devido ao fumo dos cigarros (fumava-se em todo o lado). Brincávamos na rua desde manhã até à noite, cumprindo à risca a hora do almoço e do jantar (sob pena de levarmos umas lambadas por não estarmos a horas às refeições). Bebíamos “caprisone” e comíamos bombocas. Andávamos de bicicleta pela via pública, matas e afins sem capacetes nem joelheiras! E muitas vezes sem travões!!

Dez anos. “Ciclo preparatório”. Pré fabricado e com alguns tetos em amianto. Ninguém nos levava nem trazia à escola. Andávamos todos a pé e era uma aventura! Não se viam pais na escola nem filas de carros à espera que saíssemos para nos levar para casa. Primeiros namoricos por carta e sem remetente…tal era a vergonha!!! Jogávamos às “4 esquinas”, ao “elástico” e ao jogo das palavras (nomes, animais, profissões). Já adiantávamos o almoço ou o jantar e  passávamos a roupa a ferro. Ao domingo vestíamos roupa bonita, almoçávamos fora e depois dávamos o tradicional passeio de carro, conhecido pelo “passeio domingueiro”.

Íamos quinze dias para a praia, apanhávamos enormes escaldões, apesar da gigantesca bola azul da “Nívea” se ver pela praia toda e arredores. Nunca se fazia a digestão e todos os dias comíamos um gelado. O meu preferido era o “Fizz” de limão! Víamos os “Jogos sem fronteiras”, o “Justiceiro – Michael Knight”, e tempos depois o “Macgyver”. Dormia-se com as janelas e varandas abertas, tal era o calor no verão! Passávamos temporadas com os nossos primos em casa dos avós, na aldeia, onde partíamos braços e cabeças, esfolávamos joelhos, andávamos descalços, nadávamos no rio, percorríamos as matas e roubávamos a fruta das árvores.

1989. “7º ano do unificado”. Passo para o liceu onde fico até ao 12º ano. Tinha “cartão livre” (podia sair da escola sempre que me apetecesse). Não havia aulas de substituição nem salas de estudo ou aulas de apoio, caso o professor faltasse. Para irmos ao bar levávamos primeiro uns “cartolos” dos alunos mais velhos. Podia-se  fumar na escola. Os balneários do pavilhão de ginástica nunca tinham água quente. Íamos para a rua se fizéssemos asneiras. Raramente os pais eram chamados ao diretor de turma. Tratava-se dos “assuntos” logo na hora e a coisa ficava por ali. Fazíamos greve às aulas. Fechávamos a escola a cadeado…afinal fomos a “geração rasca” da Manuela Ferreira Leite!

Andávamos sempre à boleia. Quem tinha mota era “um senhor”!! Não havia quase ninguém com carro. Quem tinha, transportava a turma quase toda para os “piqueniques” que fazíamos nas redondezas!

Trabalhava nas férias grandes para ter dinheiro para as minhas coisas (desde os 15 anos). Trabalhei na cafetaria da Portugal Telecom, lavei carros, pus gasolina, rapei ervas, vigiei matas e fui monitora de campos de férias. Comprei o meu primeiro rádio portátil com leitor de CD, na loja da “Singer”, aos 16 anos. Caríssimo na altura, mas era para isso que trabalhava! Quando cheguei a casa com aquele “portento”, o meu irmão delirou! O primeiro CD que tocou foi o que vinha de oferta com o respetivo “portento”!

Aos 18 anos termino o liceu. Nessas férias grandes tiro a carta de condução (à noite). O meu primeiro carro foi um Fiat 127 castanho. Um carrão!! O vidro do lado direito não abria e tive de forrar a manete das mudanças com um lenço, pois estava a desfazer-se! No rádio só dava uma estação. Gravava cassetes que tocavam sem parar (até enrolarem a fita)!

Iniciei o curso superior em 1996. Em 2000 estava a trabalhar.

Passados estes anos estou a escrever este texto e não posso deixar de comparar como se viveu e cresceu no “século passado” e como se vive e cresce atualmente. Realmente os tempos mudaram. Não sei se para melhor ou para pior. Talvez tenhamos melhorado em alguns aspetos. Noutros nem por isso. Saudades desse tempo? Muitas!! E o que é certo é que se olharmos para trás…qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência!