Qual é o nível de informação real que têm o PM e o PR?

por Norberto Pires | 2014.08.01 - 09:23

FICÇÃO
Primeiro-Ministro a 11 de Julho: “Não há nenhuma razão que aponte para que haja uma necessidade de intervenção do Estado num banco que tem capitais próprios sólidos, que apresenta uma margem confortável para fazer face a todas as contingências, mesmo que elas se revelem absolutamente adversas, o que não acontecerá com certeza”

Ler notícia do Jornal de Negócios aqui.

Presidente da República a 21 de Julho: O Presidente da República justificou que os portugueses podem confiar no BES «dado que as folgas de capital são mais do que suficientes para cobrir a exposição que o banco tem à parte não financeira, mesmo na situação mais adversa». Sobre a atuação do Banco de Portugal neste processo, Cavaco Silva disse que, segundo a informação que tem, o banco, “como autoridade de supervisão, tem vindo a atuar muito bem a preservar a estabilidade e a solidez” do sistema bancário português.

Ler notícia do Diário Económico aqui.

 

REALIDADE
19 dias depois, no caso do PM, e somente 9 dias depois, no caso do PR, o BES divulga as contas semestrais que revelam mais de 3.5 mil milhões de euros de prejuízos (muito superior à margem confortável de que falava o PM), revelam custos com imparidades superiores a 4.2 mil milhões, revelam a necessidade de uma aumento de capital cujos valores já andam na casa dos 4 mil milhões, revelam a necessidade de uma muito provável e urgente intervenção do Estado no BES (lá se vai a ideia de que os privados gerem melhor), revelam uma série de ilegalidades (criminosas) que obrigaram o Banco de Portugal a retirar direitos de voto à família ES e a suspender 3 administradores do Grupo (lá se vai a ideia de que o privado é mais transparente, mais rigoroso e mais resiliente), provocam a maior hecatombe de sempre de uma empresa na bolsa nacional (esteve a cair 51% perdendo mais de 1000 milhões de euros) e colocam o Governo a anunciar que este descalabro terá “certamente” impacto na Economia (Marques Guedes à saída do Conselho de Ministros).

 

Muitas perguntas assaltam a minha cabeça, mas eu deixo aqui somente algumas:
1. Qual é o nível de informação real que têm o PM e o PR? Não são informados? Ou são, e pura e simplesmente não querem saber? Não se mantiveram a par, porque desvalorizaram e não perceberam o forte impacto que tudo isto ia ter, exigindo informação ao segundo, sobre tudo o que estava a acontecer, ou pura e simplesmente foram mantidos fora do circulo restrito da informação quente?
Nota: As respostas a tudo isto são para mim muito relevantes, porque eu quero saber quem está ao leme do Estado, qual é a qualidade e atualidade da informação de que dispõe, e com que interesse e resiliência procura essa informação e atua em conformidade.

2. O que falta ainda saber? Qual vai ser o impacto do BESA (o BES tem 55,71% daquele buraco negro)? Em pouco mais de 1 mês o BES passou de prejuízos de 200 milhões para mais de 3.5 mil milhões, perdendo a seguir em poucos minutos mais de 1000 milhões na bolsa nacional, o que será expectável nos próximos 30 dias?

3. Alguém quer falar da PT, essa maravilhosa empresa bandeira Portuguesa gerida pelos melhores CEO do mundo (nisso não há provincianos como os portugueses), que num instante enterra perto de mil milhões no GES e passa a uma subsidiária de uma empresa da 3ª divisão do Brasil, perdendo valor diariamente na bolsa e sendo alvo da chacota nacional e internacional pelas suas “decisões” de gestão e governo corporativo? Como é possível que isto esteja a acontecer na PT sem ninguém se preocupar no Governo e na PR? O que me leva à pergunta inicial: qual é o nível de informação real que têm o PM e o PR?

4. Este país que não tem dinheiro para nada, anda a cortar na segurança social, no apoio a idosos, na saúde, na educação, no ensino superior, a cortar para além do limite e sem razoabilidade na ciência e na investigação, tendo por base uma ideia de maior controlo orçamental e adequação do nível de despesa à nossa capacidade de angariar receita, percebe a GIGANTESCA perda de valor que significa este descalabro no BES (e na PT)? Percebe que os seus parcos recursos, que lhes são negados para o que é na verdade essencial, tendo por base uma ideia de maior rigor e controlo orçamental, estão em sério risco porque aparentemente o nível de controlo da situação (revelado pela deficiente informação de que parecem dispor) é muito rudimentar por parte de quem elegemos para gerir os nossos interesses?

 

Repito: Qual é o nível de informação real que têm o PM e o PR? Que é o mesmo que dizer, quem é que verdadeiramente manda neste país?

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal "Robótica". Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

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