PSD VOTA CONTRA SAUDAÇÃO AO 1.º DE MAIO NA A. M. DE VISEU E NUNO MELO, DO PP, APOIA A EXTREMA-DIREITA DO VOX

por Carlos Vieira | 2019.05.03 - 09:26

A verdade vai-se soerguendo por entre as notícias falsas (“fake news”), a  manipulação noticiosa de grande parte dos “media” e a camuflagem política da direita e da extrema-direita para enganar os mais distraídos e os pobres de espírito.

Foi assim em Espanha, com o PP a cair a pique nas eleições do passado 28 de Abril (perdeu 1,6 milhões de votos para a Vox e 1,4 milhões para o C’s – Ciudadanos),  castigado pela corrupção dos seus dirigentes, pelas falsas conclusões de alegadas investigações do seu governo ao Podemos e ao seu líder Pablo Iglésias, pela “lei mordaça” de Rajoy (não abolida por Sanchez!) que continua a impedir a livre expressão e o direito à manifestação em todo o estado espanhol e pela repressão brutal e anti-democrática dos catalães que se limitaram a exercer pacificamente o direito dos povos à autodeterminação, reconhecido pelo direito internacional e também consagrado na Constituição da República Portuguesa.

O crescimento da Vox, apesar de não tão grande como vaticinavam as sondagens e a comunicação social, sendo preocupante, não deixa de ser também uma clarificação, tornando evidente o que muitos tentaram esconder: que a extrema-direita neofalangista, fascista, xenófoba e revanchista que agora sai do esgoto para a luz do dia, se encontrava de facto dentro do PP, onde se sentia confortável com as políticas reaccionárias de Fraga, Aznar e Rajoy. Ou não fosse o PP herdeiro da Aliança Popular, coito de antigos dirigentes franquistas. E não adianta agora a Casado tentar dar um ar menos franquista ao esfrangalhado PP, acusando o Vox de extrema-direita, quatro dias depois de lhe ter proposto uma aliança de governo. Que o Vox é de extrema-direita, todos sabemos, já que defende a privatização da Saúde, da Educação e de parte da Justiça civil, a liberalização do uso de porte de arma, a expulsão de 52 mil imigrantes e a revogação de leis para a igualdade de género e contra a violência sobre as mulheres, o fim do casamento entre homossexuais e a anulação das autonomias regionais.

Ao contrário desta cínica ameaça de divórcio do PP espanhol com o Vox, o cabeça de lista do CDS/PP às eleições para o Parlamento Europeu, Nuno Melo, veio, publicamente, declarar o seu amor ao Vox, branqueando-o ao afirmar que não é um partido de extrema-direita, dado que “90% do seu programa encontra-se no programa do CDS/PP”,  e que não estranharia que o Vox viesse a entrar no PPE – Partido Popular Europeu, onde se acolhem os deputados europeus do PSD e do PP.  Assim se vê, a essência do PPE se percebe melhor porque é que não surgem em Portugal partidos assumidamente fascistas. É que, além de estes serem proibidos pela nossa Constituição da República, há salazaristas que se sentem confortáveis nos partidos de direita, tal como em Espanha se acoitaram no PP. Não quero com isto dizer que todos os militantes do CDS/PP sejam de extrema-direita, como é, ou parece ser, Nuno Melo. Conheço pessoas do CDS que são democratas sinceros. Por vezes até o PSD consegue ser mais de direita do que o CDS.

Foi o que aconteceu na última sessão da Assembleia Municipal de Viseu, em 26 de Abril, com a maioria do PSD a chumbar uma moção de saudação ao 1.º de Maio, apresentada por Catarina Vieira, do BE, que contou com 13 votos a favor  (PS, BE e CDU) e 7 abstenções, incluindo a do presidente da Mesa da AM, Mota Faria, e de Francisco Mendes da Silva, do CDS, ambos apenas por não partilharem da discordância do Bloco em relação às políticas da Comissão Europeia e do BCE contra o mundo do trabalho).  Pedro Alves, do PSD, justificou o voto contra também pela referência à “contratação colectiva”. Ora, em França, por exemplo, as convenções colectivas são obrigatórias desde 1936, altura em que se aprovaram as férias pagas e a semana das 40 horas. Em Portugal, a própria CIP – Confederação da Indústria Portuguesa, enviou ao Conselho Económico Social o seu contributo ao documento “Dinâmicas recentes da contratação colectiva em Portugal”, distribuído pelo Governo a 5.02.2018, onde reconhece que “Na perspectiva da CIP, a Contratação Colectiva -expressão do diálogo social ao nível setorial, regional e empresarial revela-se não só indispensável à manutenção da paz social, como decisiva na produtividade e, assim na competividade das nossas empresas”. Claro que para a CIP, a competividade das empresas passa pela individualização das relações de trabalho, como é o caso do “banco de horas individual” legislado pela direita.  A verdade é que em 2008 havia quase dois milhões de trabalhadores abrangidos pelos acordos colectivos de trabalho e actualmente existem apenas cerca de 200 mil. Mas, o que importa aqui sublinhar é a clarificação da posição retrógrada e reaccionária da maioria do PSD/Viseu ao chumbar uma saudação ao Dia Internacional dos Trabalhadores, ultrapassando o CDS pela direita.

Regresso às eleições em Espanha: o C’s, de Rivera, também mostrou ao que vinha, ao se aliar à extrema-direita do Vox e ao PP na Andaluzia, depois de tentar passar-se por centrista e liberal, para cumprir o seu papel de disputar ao Podemos uma certa radicalidade juvenil. Inchou com os votos do PP, mas o seu conservadorismo e reaccionarismo ficou bem patente na forma extremista e provocadora com que tem lidado com a questão catalã.

O Unidos Podemos, erodido por divisões internas , perdeu 29 deputados (1,3 milhões de votos), não conseguindo somar com o PSOE a maioria absoluta. Agora, Pablo Iglesias disponibiliza-se para “um governo de coligação de esquerda” com o apoio dos partidos independentistas, dado o carácter plurinacional do Estado espanhol,  mas Sanchez, que venceu as eleições beneficiando do pretenso “voto útil” para suster a augurada subida vertiginosa do Vox, já está a sofrer pressões do grande capital financeiro (os donos do Santander, por exemplo) e da ala mais à direita do PSOE (como o ex-líder Felipe Gonzalez, responsável máximo pelo terrorismo de Estado dos GAL, no País Basco), para um governo com a direita do C’s. Vamos a ver se Sanchez respeita a sua promessa de governar à esquerda, tal como exigiram os seus apoiantes  que gritaram à porta da sede do PSOE, na noite das eleições, “Con Rivera, no! Con Rivera, no!”

Na Catalunha, os eleitores derrubaram o argumento espanholista de não haver ali uma maioria social a favor da independência, ao darem a maioria de deputados, pela primeira vez em eleições nacionais, aos partidos independentistas.

No País Basco cumpriu-se a profecia de Arnaldo Otegi de que a direita espanholista não elegeria ali nenhum deputado. Nem Vox, nem C’s, nem sequer o PP que governa em Gasteiz/Vitória conseguiram eleger. O PNV – Partido Nacionalista Vasco, de direita, venceu com 6 deputados; o EH Bildu, da esquerda nacionalista, duplicou, ficando com 4 deputados, tantos como o Unidos Podemos e o PSOE. Uma votação histórica, comemorada em todo Euskal Herria (Euskadi, País Basco do Sul, e Iparralde, do lado francês).

Carlos Vieira e Castro