Professor em Trânsito: passividade e indiferença

por João Salgueiro | 2014.05.28 - 18:29

Ser Professor já não é o que era, está bom de ver. A mais recente invenção foi pôr o professor a circular de escola em escola e de ciclo em ciclo, esgotando-se física, psicológica e profissionalmente.

Durante muito tempo, o professor mudava anualmente de escola, acumulando ansiedades em repetidos concursos que o obrigavam a circular por todo o país, mas tinha a garantia de ficar aquele ano letivo numa só escola. Hoje, não é assim! O aparecimento dos agrupamentos e da agregação de escolas, tendo conduzido à criação de mega estruturas com estabelecimentos de ensino dispersos, atirou muitos professores para uma rotina de estrada: transitam de escola em escola e de ciclo em ciclo de ensino, num carrossel desenfreado e estonteante.

Enquanto isso, aparentemente, a ninguém preocupa a situação destes professores que se confrontam com a passividade e a indiferença. Há uns anos atrás, esta realidade seria insustentável, a comunicação social era chamada ao terreno, os sindicatos tinham mais uma bandeira para bramir e a sociedade em geral mostraria o seu desagrado face às nefastas consequências que daí poderiam advir para a instrução das crianças e dos jovens. Os próprios atingidos não ficariam calados.

No Portugal da Troika, parece que tudo é possível! As pessoas são colocadas como marionetas de um poder invisível e, neste caso, os professores sofrem em silêncio e afogam as mágoas em exíguos e cada vez menos visíveis núcleos solidários. Enquanto isso, em trânsito, sofrem uma intensa via-sacra, de escola em escola e a expensas próprias.

No final da semana, do mês, dos períodos letivos, o professor, esgotado, pergunta-se se valeu a pena, e não pode responder como o poeta. Ao invés, só se pode lamentar em surdina: “não, não valeu a pena, ainda que a minha alma não seja pequena”. Prevalece o instinto de sobrevivência.

Neste quadro, podemos considerar o aparecimento de uma 4ª categoria de professores. Temos os Professores do Quadro (PQ de Agrupamento ou de Escola), os Professores do Quadro de Zona Pedagógica (QZP), os Professores Contratados (PC) e, agora, também os professores em trânsito (P–em-T), por uma via cada vez mais estreita [e, quiçá, a anteceder um (in)oportuno encosto à valeta para serem depois atirados borda fora]. Mas não se pense que este fardo apenas atinge os mais novos. Um destes dias uma colega lamentava-se: “tenho 27 anos de serviço, fui colocada em Horário Zero e também sou professora em trânsito, ando a circular por aí; entre 5 escolas, cada uma das quais em seu canto da cidade; salto de ciclo em ciclo, faço mais de 400 km por mês! Ando completamente estoirada”.