Poupar numa expressão para gastar numa acção!

por António Soares | 2014.04.03 - 12:37

 

Não sei se nascemos pré destinados a realizar uma tarefa específica, mas cada vez me convenço mais que há coisas que nascemos para não fazer de todo. No caso de Isabel Jonet, o que não deve fazer é falar. Pelo menos publicamente.

No dia 06 de Novembro de 2012, na SIC Notícias, Isabel Jonet, a Presidente do Banco Alimentar, afirma que “vamos ter que reaprender a viver mais pobres (…) vivemos de uma maneira completamente idiota. Por exemplo, fomos habituados a lavar os dentes com o copo dos dentes; os meus filhos lavam os dentes com a torneira a correr”. Bem, denota-se imediatamente que Jonet não nasceu para esta vida pela forma do discurso: os dentes lavam-se com escova, não com copo, a torneira não corre, quando muito corre água da torneira.

Mas se a forma pode ser reflexo do nervosismo, o conteúdo é nitidamente falta de jeito para conversa pública ou, em alternativa, mas igualmente coerente, pura estupidez. Até porque, uns minutos depois, a mesma senhora afirma, em contradição com o exemplo que acabara de dar, que os pais “continuam a educar mal os seus filhos”. Este comentário da senhora Jonet fez-me lembrar o título de um filme dos finais dos anos 80, “Look Who’s Talking”, em Português, “Olha Quem Fala”, com John Travolta.

Mas as pérolas deste discurso vão mais longe: “Ou vamos a um concerto de rock ou efectivamente podemos ir tirar uma radiografia quando caímos numa aula de ginástica”. Isabel Jonet sabe do que fala, os seguros são peritos em colocar-se de fora nos acidentes nas aulas de “ginástica”. [Um aparte: designar Educação Física de “ginástica” é como , em relação à matemática, dizer que “o aluno portou-se mal na aula de somas e subtracções”].

Mas a cereja no topo do bolo ou, se preferirmos, por adequação ao tema, o filet mignon deste discurso, ainda estava para aparecer: “Se não temos dinheiro para comer bifes todos os dias, não podemos comer bifes todos os dias. E então esse empobrecimento é pelo facto de nós estarmos habituados a comer bifes todos os dias, ou achávamos que podíamos comer – não podemos!”. Este é mais um comentário de Jonet que remete para uma expressão de uma série televisiva. Neste caso para a melhor série Portuguesa de sempre, “O Fura Vidas”, e para o personagem “Quim Fintas”, quando afirmava “Comer é para os fracos”.

A Presidente do Banco Alimentar (Contra a Fome) dizer que “não podemos comer bifes todos os dias” porque “temos que reaprender a viver mais pobres”, enquanto faz peditórios de alimentos nos hipermercados, faz-me lembrar aquele adágio-anedota “o dinheiro não traz felicidade, dá-me o teu e sê feliz”.

“E cá em Portugal nós podemos estar mais pobres mas não temos miséria”, legitimando a questão “Então qual é a razão de existência do “seu” Banco Alimentar?”.

Esta semana, Isabel Jonet volta a abrir a boca publicamente para dizer mer…coisas, como “O pior inimigo dos desempregados são as redes sociais” porque “as pessoas ficam desempregadas e ficam dias e dias inteiros agarradas ao Facebook, ou agarradas a jogos, agarradas a amigos que não existem e vivem uma vida que é uma total ilusão”. Se o Facebook é apenas para pessoas com emprego, Jonet arrisca-se a perder muitos (milhares) dos 96 120 “Likes” da página do banco Alimentar Contra a Fome nessa rede social.

O que aconselha a senhora Jonet? O voluntariado! Nas suas palavras “pode ajudar os desempregados a manterem-se activos, o que pode gerar mais possibilidades de encontrar um novo emprego”.

Já ca faltava o Miguel Gonçalves em versão feminina, para “bater punho”. Quem também gosta muito de trabalho voluntário são aquelas instituições que recebem estagiários para formação “em contexto profissionalizante”, e que, além de não darem qualquer tipo de formação, tentam escravizar os estagiários com a égide falaciosa da “oportunidade de emprego”, descartando-os quando o período de estágio termina e passam a ser vistos como uma despesa. Depois admitem novos estagiários e o ciclo repete-se. Felizmente não são todas as instituições assim, mas são muitas.

O Banco Alimentar é que parece ter muitos voluntários. Pessoas que investem o seu tempo e recursos em deslocações, alimentação, e todas as despesas associadas ao quotidiano, para ajudar de forma gratuita e por amor ao seu semelhante.

Era interessante saber quanto recebem as Jonet’s do Banco Alimentar. Porque ninguém paga as contas com amor à camisola, e a senhora Jonet e os “directores” dos Bancos Alimentares espalhados pelo país não são, certamente, excepção.

De “não sejam piegas” a “emigrem”, de “não podemos comer carne todos os dias”, a “ai aguenta, aguenta”, ouvimos constantemente expressões que deveriam ser censuradas por um lápis azul da sensatez. Ou então não, porque assim não veríamos tão bem onde anda a estupidez.

Esta hipocrisia social faz lembrar “A Grande Farra”, filme de Marco Ferrari que passou recentemente na RTP1, cuja sinopse é a seguinte: “Quatro homens de sucesso de meia-idade e de origens sociais diferentes decidem juntar-se na casa de campo de Philippe para passarem alguns dias. Depois da primeira noite, Marcello insiste que se devem juntar ao grupo algumas mulheres, o que acaba por acontecer. Posteriormente, envolvem-se em práticas sexuais em grupo e comem até à morte”.

Para elucidar a senhora Jonet – e os autores das expressões supracitadas -, que tanto aprecia metáforas, a ideia geral é que vivemos numa espécie de “Nova Roma”, onde uns quantos estão num camarote, com um banquete, um jarro de vinho e umas escravas meretrizes, enquanto o povo luta na arena de um Coliseu chamado Portugal pela sua sobrevivência.

E que tal estas personalidades pouparem nas expressões e investirem em (boas) acções?