POST MORTEM

por José Carreira | 2015.04.04 - 12:44

 

 

Portugal perdeu, em pouco tempo, três grandes vultos, dois homens da cultura – Herberto Hélder e Manoel de Oliveira – e um economista de reconhecido mérito: Silva Lopes.

Não sou um profundo conhecedor da obra de nenhum deles. Li algumas obras de Herberto e vi alguns filmes de Manoel. Li menos livros e vi menos filmes do que devia, estou a perder…

Custa-me ver a fila de notáveis a prestar declarações sobre os homens e as obras, algumas frases desgarradas, outras profundamente infelizes e que em nada prestigiam os seus autores e desmerecem, isso é triste, os visados.

Como sempre, as televisões bombardeiam-nos, além das declarações, com reportagens e no caso de Manoel, com a apresentação de alguns dos seus  filmes.

Como sempre, no POST MORTEM, ainda que de forma fugaz, há quem, pelo seu mérito, ganhe um novo fôlego, uma espécie de nova vida mediática.

Seria interessante aferir quantos filmes do “Mestre” passaram nos canais portugueses, no último ano, ou quantos trabalhos foram feitos sobre a obra do poeta. Creio que, mesmo sem esses dados, todos nós temos a resposta…

São homens de reconhecido valor que, para se eternizarem, não precisam do circo mediático e do foguetório habitual. Os seus nomes ficarão sempre gravados nos anais da história, por bons motivos, inversamente ao que sucederá com muitos daqueles que agora falam, falam, mas não dizem nada. Citando, no plural, um vizinho ibérico: “Porque não se calam?”

A MORTE não assustava o REALIZADOR. Passou na TV, vezes sem fim, o excerto de uma entrevista em que dizia que não a temia porque ela significa paz, sossego, estando os perigos e os medos na vida.

A MORTE era algo que parecia afetar o POETA. Em dois dos seus trabalhos mais recentes, A Morte Sem Mestre e Servidões, é notória a relação difícil do Herberto com o envelhecimento e a morte.

 

“nunca estive numa só linha a tão vertiginoso altura,

Oh Anjo Príapo, oh Nossa Senhora Côna!

quando nos vimos nus um em frente ao outro,

em nossa primeira noite nos começos do mundo,

numa pensão rasca de um bairro de quinta ordem,

o putedo sai que entra pelos quartos à volta

– peço por isso que um qualquer erro de ortografia ou

                                                                          sentido

seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro.

 

(Herberto Hélder, A Morte sem Mestre)