Portugal e o Futuro : os Problemas na Geração da Riqueza. (I)

por Carlos Martins | 2013.12.09 - 22:43

Afirmei recentemente que o país não era capaz de produzir riqueza, e que também tinha duvidas que fosse capaz de produzir ricos! Enganei-me. Não na incapacidade de produzir riqueza, mas na capacidade de gerar ricos. Não é que exista algum problema na criação de ricos. O problema só existe, se eles forem poucos, ou sempre os mesmos.

Mas é na riqueza que nos temos de concentrar. Importa assim perceber, como resolver este problema: quais as origens (I), quais as consequências (II), e quais as saídas para Portugal (III).

As origens do problema. A estrutura empresarial portuguesa é há longo prazo dominado por pequenos negócios (cerca 95% da empresas têm menos de 10 trabalhadores). Se considerarmos que Portugal tem um universo de cerca de 1 milhão de empresas (INE), destas somente cerca de 50 mil empresas têm mais de 10 trabalhadores. Acresce a esta característica que, a esmagadora maioria têm uma gestão e génese de base familiar, e uma débil estrutura capitalística. Por outro lado concentra a sua actividade no mercado interno. Só perto de 20 mil empresas exportam.

Um segundo problema, bem menos debatido, é a qualidade da gestão nas empresas. Um recente estudo realizado pela U. Stanford, em 20 países, com uma amostra de 10 mil entrevistados coloca Portugal entre os últimos cinco piores países. Convém ainda referir que entre outras, se revelaram duas conclusões: as empresas publicas são as piores em termos de gestão, e , os não gestores têm mais formação que os gestores! Esta constatação, pode ajudar a explicar a reduzida rendibilidade das empresas, e da sua durabilidade no tempo. Logo as altas taxas de mortalidade das empresas, podem ser por incompetência. E será ainda mais dramático, se tivermos empresários ricos e empresas pobres.

Um terceiro tipo de problema é o grave desequilíbrio demográfico. Portugal assiste desde o final do século passado a um declínio geracional. A evolução dos nascimentos foi: 1981 =152m;2001=112m;2004=109m;2010=101m e 2012=89m (aprox.). O indicador de idosos por 100 jovens foi: 1981=45,4;2001=101,6;2004=106,6;2010=121,6; 2012=129,12 ! É uma espécie de bomba atómica demográfica. Com consequências no consumo interno e na manutenção sustentável de serviços (ex. creches, universidades, hospitais etc). Será bom não esquecer, que a maioria das empresas vende no mercado interno. Não havendo consumo não há negócio. Ponto.

Finalmente, um outro problema, mais recente (?) – a produção de ricos e o fosso com os pobres. Entre outros números recentes, Portugal apresentou 6 banqueiros com rendimentos superiores a 1 milhão de euros. O Reino Unido tem 271, a Alemanha tem 212, a França tem 177, a Itália tem 109 … . Finalmente os multimilionários (fortunas superiores a 25 milhões de euros) aumentaram 10,8% (870)! Ficamos igualmente a saber, a semana passada, que 1 em cada 4 portugueses estão em risco de pobreza ou exclusão social. É um valor acima de 25% da população portuguesa! Ficando atrás de nós, somente Grécia, Letónia, Roménia e Bulgária.

Síntese. Portugal tem (1) uma estrutura empresarial débil, com uma qualidade de gestão medíocre; apresenta (2) um desequilíbrio demográfico que conduz a, uma insustentabilidade de serviços, e por arrasto, a um desequilíbrio das despesas publicas; (3) está a, cavar um assustador fosso entre o rendimento disponível das famílias mais ricas, e mais pobres. Parece uma trajectória para o infernal ciclo vicioso da pobreza. Somos pobres, porque somos pobres? Não.