Porque é 5 de Outubro

por Rui Macário | 2014.10.05 - 12:26

EUDAIMONIA

 

Talvez escreva estas linhas porque “ter” feriados parece um privilégio de outras eras independentemente do dia da semana em que efectivamente “calhavam” mas, ao celebrar-se mais um 5 de Outubro com triste míngua de cerimonial e mais um conjunto de expectáveis nadas por parte do Presidente da República, hoje lembrei-me de que há sítios onde há feriados e o que é afinal um feriado.

Independentemente da origem do termo os feriados são, em termos patrimoniais, uma imposição de quem “domina” e uma consagração de um modo de ser e pensar comunitário, em simultâneo as mais das vezes. Haver uma data que recorda a implantação da República em Portugal, recorda a transição de um regime (boa ou má transição, bem ou mal executada, justa ou injusta) para outro, de um anterior para o actual em que, em princípio, a generalidade dos membros da comunidade se revê. Não festejamos o 28 de Maio porque não nos revemos ou queremos rever no que esse interregno de um caminho democrático significou. Talvez devêssemos, assinalando cada um dos presos políticos, cada uma das mortes “de Estado/Regime”, cada uma das sessões de tortura, etc.

De facto, os feriados marcam o calendário vivencial de uma comunidade e marcam igualmente a possibilidade de parar e em ócio fazer o que se pretenda. A transição do simbolismo de uma data com toda a carga que lhe era inerente para meros dias de nada fazer foi paulatina mas ainda assim, ainda que ao feriado se atribuísse apenas uma carga de lazer, também ele seria importante quando os horários semanais são um regresso a tempos passados.

Proponho um feriado em que se recorde o trabalho (diverso do Dia do Trabalhador) e as condições em que o trabalho se fazia, com que horas diárias, com que condições gerais de acesso a uma vida que fosse mais que mera sobrevivência. Um dia em que quem dirige os destinos da comunidade para quem deveria trabalhar, se recorde ou aprenda que o serviço da Nação e das suas múltiplas comunidades locais parte do básico pressuposto de proteger todas e cada uma dessas comunidades e promover a sua melhoria (económica, social, etc.).

Hoje e porque é 5 de Outubro nada se fará de relevo e porque nada se fará de relevo, estamos ao mesmo nível do quase celebrar o 28 de Maio, porque nada se fará politicamente de relevo também. Há algum tempo atrás, li algures que Portugal neste momento era (partilhando o “posto”) o décimo país do Mundo com menos feriados. Seremos quase o décimo país do Mundo com menos lembrança do que foi e do é; tragicamente corremos o risco de ser o décimo país do mundo com menos noção do que pode vir a ser.

 

Licenciado em Arte e Património (UCP-Porto) e Pós-Graduado em Arte Contemporânea (UCP-Porto), sendo actualmente Investigador do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes (CITAR) e doutorando em Estudos do Património (UCP-Porto), Desde 2008 é um dos responsáveis pela Projecto Património, tendo assumido funções de coordenação/co-coordenação de vários dos projectos pela mesma assumidos (de que se destacam o Ano Internacional Viseense, a VISEUPÉDIA, o VISTACURTA – Festival de Curtas de Viseu, e o Museu do Falso). Colaborou em, ou integrou projectos de várias entidades a operar no sector cultural (entre outras: Museu do Carro Eléctrico, Museu Grão Vasco, Diocese de Viseu, Arquivo Distrital de Viseu).

Pub