POR UMA VENEZUELA COM DEMOCRACIA E SOCIALISMO, SEM MADURO, NEM GUAIDÓ!

por Carlos Vieira | 2019.02.25 - 10:14

 

O governo português que reconheceu com tanta leviandade o autoproclamado presidente da Venezuela, por seguidismo cego perante Trump e a UE, não tem coragem para apelar ao fim da repressão (de que os presos políticos catalães são uma pequena parte) e dos atentados à liberdade de expressão (com processos judiciais a actores e músicos por criticarem o rei  e a hierarquia da religião católica que o apoia) , não só na Catalunha, mas em todo o Estado espanhol.

António Costa e Santos Silva,  em  vez de seguirem Trump, apoiado por Bolsonaro, a Espanha e outros países europeus (que vendem armas à Arábia Saudita para bombardear civis no Iémen, onde podem morrer à fome 13 milhões de civis, segundo a ONU, e já morreram 85 mil crianças),  afrontando o governo em funções na Venezuela, independentemente da opinião que se tenha sobre Maduro, deveriam ter tido o cuidado de não expôr os portugueses que vivem naquele país (há luso-descendentes também entre os muitos milhares que se manifestam a favor do regime “bolivariano”, como provam algumas reportagens) e até poderiam oferecer-se para mediar o conflito, ao lado do México e do Uruguai,  da mesma forma que António Guterres declarou que a ONU quer mediar negociações entre o presidente Nicolás Maduro e a oposição liderada por  Guaidó.

Guaidó pertence a um partido da Internacional Socialista, mas já demonstrou que  anda de braço dado com a extrema-direita e que é um peão de brega dos interesses estratégicos dos EUA que lhe deram via verde para usurpar o poder, num remake do que haviam feito há mais de cem anos, em 1908, quando o general Cipriano Castro, à frente do governo venezuelano, afrontou o agiotismo da Alemanha, Grã-Bretanha e Itália que lhe declarariam guerra e um bloqueio, e os EUA saqueadores do petróleo, que, aproveitando a sua saída para fazer um tratamento na Europa, colocaram no poder o vice-presidente, Juan Gómez, que veio a ser um feroz ditador durante 25 anos, com apoio dos latifundiários e dos monopólios petrolíferos, com capitais dos EUA e da Inglaterra.

A direita tem aproveitado para colar a imagem de um país com carência de comida e medicamentos aos regimes socialistas ou comunistas, como se o bloqueio e as sanções económicas e o arrestamento de fundos, não contribuíssem para essa situação dramática. É certo que o PCP e outros partidos comunistas de vários países defendem incondicionalmente o regime de Maduro, mas outros partidos igualmente socialistas e de esquerda criticam Maduro e apenas se posicionam contra a ingerência externa na Venezuela, e não reconhecem Guaidó que, aliás,  tem apelado  à intervenção  estrangeira que poderá levar a uma guerra civil e até internacional. A deputada do BE no Parlamento Europeu, Marisa Matias, declarou que “o Bloco não está com Trump e Bolsonaro. Está com Guterres e as Nações Unidas”.  A Cruz Vermelha Internacional também já anunciou que não participará no envio de ajuda humanitária à Venezuela, planeada pelos EUA e pela oposição venezuelana, por ter “um carácter político” que fere os seus “princípios de imparcialidade, neutralidade e independência”.

Ao contrário da hipocrisia dos partidos da direita e do centro que tiveram Passos, Portas e Sócrates a bajular Chavez e Maduro, a esquerda do BE escrevia, há mais de dez anos, na revista “A Comuna” de Março de 2008, no artigo “Sem  Chave Para o Socialismo”, assinado por Luís Fazenda, Carlos Santos e Vítor Franco: “A Venezuela apresenta uma resposta nacionalista, muito contraditória e confusa ao domínio imperialista dos EUA na região. Esse enfrentamento tem largo apoio popular e engajou politicamente os excluídos. Mas nada nesta história aponta para qualquer socialismo, tímido que seja”. (…) “O chavismo reúne a convergência de sectores sociais intermédios, da burocracia estatal e militar, de pequenos proprietários, de trabalhadores pobres e de grandes massas de excluídos.  Essa aliança social, nos choques politicos concretos, deu ao movimento um carácter anti-burguês. Para um pacato cidadão europeu aquilo até parece socialismo. Parece, mas não é.” Reconhece-se os “programas de fornecimento de alimentos e refeições a preços baixos, milhares de médicos cubanos levam saúde aos bairros mais desfavorecidos, outros milhares participam em acções de alfabetização, reingresso na escola, criação de cooperativas de cultivo de terras, formação profissional e criação de oficinas. Estas políticas permitem saltos apreciáveis na redução da pobreza e do analfabetismo”. Mas critica-se esta política de campanhas (“missões”), em vez da estruturação de serviços públicos permanentes. E depois de denunciar o caudilhismo de Chavez e  a corrupção do exército, da polícia e da administração pública, alertava-se: “Os sectores corruptos podem ser chavistas hoje e golpistas amanhã”.

Agora que o golpe está em marcha, há que lutar pela Paz, exigindo o fim das sanções económicas e financeiras impostas pelos EUA, que provocam a falta de alimentos e medicamentos, e a realização de eleições livres,conforme exige a Plataforma Cidadã em Defesa da Constituição, que congrega opositores de Maduro, mas não reconhece Guaidó e rejeita intervenções ditas humanitárias, mas alheias a “organismos ligados aos direitos humanos, à saúde e à alimentação”, que não passam de “ajuda forçada com violência ou como intromissão de outra nação”.

 

Carlos Vieira