Por uma atitude mais proactiva dos agentes políticos locais para com o Instituto Politécnico de Viseu

por Pedro Baila Antunes | 2014.03.02 - 10:44

Não há como escamotear, os viseenses – com ênfase nos políticos – sempre tiveram uma espécie de complexo pela inexistência de uma universidade pública em Viseu!

Evidentemente que as diversas promessas políticas perdidas de instalar a universidade pública em Viseu, apregoando projetos, mais realizáveis ou mais utópicos-demagógicos, só concorreram para o recrudescimento do desencanto. A isto estavam também muito associadas as diversas infraestruturas estratégicas que, entre as mãos, Viseu deixou escapar para cidades vizinhas, começando pela própria universidade para Aveiro, passando pela faculdade de medicina (a última grande oportunidade de universidade?), o comboio, as grandes indústrias, diversos serviços públicos, o estádio de futebol (aí, apetece dizer: “ainda bem!”), etc.

Porventura apenas com exceção do Dr. Correia de Campos, esta dor tem estado sempre latente na (in)ação dos diversos agentes políticos neste plano. Por agentes políticos entenda-se viseenses enquanto membros do governo, deputados e, particularmente, a Câmara Municipal de Viseu (CMV), que, contrariamente ao que se passou noutras cidades-regiões, pouco cooperaram para o desenvolvimento das instituições de ensino superior já instaladas, mormente a pública – o Instituto Politécnico de Viseu (IPV) –, parecendo antes quase menorizar o seu papel.

Elucidativo deste alheamento foi o comportamento do Dr. Fernando Ruas no Conselho Geral do IPV e a consequente sua não cooptação para o atual Conselho. Ora, tendo faltado a todas (todas!) as reuniões do anterior quadriénio, os membros internos deste Órgão não encontraram motivos para renovar o convite ao cidadão, à data, presidente da CMV.

Está à vista de todos que, no atual contexto económico-financeiro do País, não é de todo esperável, ou até mesmo compreensível, a criação de raiz de um estabelecimento de ensino superior público universitário em Viseu. Está na hora de os políticos Visienses, com mandatos locais ou nacionais, representativos ou executivos, despindo-se de sentimentos de “mal menor”, se convencerem disto e olhar para “os seus”, assumindo uma atitude mais proactiva para com as instituições de ensino superior locais, contribuindo decisivamente para a sua capacitação, em prol do desenvolvimento da cidade-região.

Isto é válido em todos os momentos, mas mais premente hoje, neste tempo quão difícil quanto decisivo para o ensino superior e o ensino superior politécnico em particular. Refiram-se algumas ameaças determinantes:

  • Os cortes significativos no financiamento estatal do ensino superior, cerca de 30% nos últimos três anos.
  • As incidências demográficas negativas no número de alunos a frequentar o ensino secundário e, sobretudo, a candidatar-se ao ensino superior, situação esta agravada pela crise económica. Isto, para além das alterações ministeriais dos critérios de ingresso em cursos de engenharia, que prejudica em muito os institutos politécnicos.
  • A reforma do sistema binário do ensino superior em curso que procura uma maior diferenciação – desejável – entre o ensino politécnico, mais profissionalizante e próximo do mercado de trabalho, e o ensino universitário de cariz mais científico. Esta não tem tido a concordância dos agentes do ensino superior politécnico (vide os contornos da proposta de novos cursos superiores de curta duração), faltando a abertura por parte do Ministério da Educação para uma verdadeira concertação.

A agravar este cenário, a intenção-imposição do Ministério do estabelecimento de associações de alcance regional entre instituições. Da leitura de documentos oficiais – cartas de intenção para a reorganização da rede de ensino superior – transparecia a “associação” (submissão?) do IPV à Universidade de Aveiro. Entretanto, observam-se alguns sinais de recuo na imposição destas associações pelo “Governo central”.

Este é então o cenário com que o ensino superior e especificamente o politécnico se depara.

É sabido que o IPV tem feito um trabalho notável de afirmação a nível local, regional e nacional. Com cerca de 6000 alunos, 400 docentes (a maioria doutorada), oferece um leque alargado de formação de qualidade, de Cursos de Especialização Tecnológica a cursos de mestrado, em diversas áreas do conhecimento. As instalações localizam-se em diferentes campus, com infraestruturas e equipamentos, incluindo laboratórios equipados segundo padrões internacionais.

Muita das vezes em interação com outras instituições, tem-se verificado no IPV uma produção científica muito expressiva. A cooperação com a comunidade exterior é crescente e em diferentes planos; sublinhe-se as sinergias com o tecido económico ao nível da investigação e desenvolvimento aplicado e da prestação de serviços de elevado valor técnico-científico.

Única instituição de ensino superior público de um distrito com uma população próxima dos 400 mil habitantes, o IPV, considerando diversos critérios, p.e. o número de alunos, está entre os cinco maiores institutos politécnicos do país e equivalendo-se às universidades do interior.

Um estudo apresentado em 2013 revelava que o IPV, em 2012, teve um impacto financeiro de aproximadamente 70 milhões de euros na região.

É assim com expetativa que se aguarda a consolidação dos bons sinais de mudança de atitude dos políticos locais para com o IPV que se manifestaram no último ano. O primeiro dos quais é, indubitavelmente, o Centro de Competência em Tecnologia da Bizdirect, encaminhado para Viseu pelo IPV e a que a CMV prestou o apoio possível-devido, amplificando ainda mediaticamente o seu anúncio/“assinatura”… Este tipo de tripé de suporte – empresas ou associações-instituições de ensino superior-CMV – é exemplar do tipo de cooperação/sinergias institucionais que tem de ser implementado.

Também no último ano sentiu-se claramente uma atenção redobrada para com o IPV por parte de diversos deputados (esqueçamos a coincidência… de alguns estarem em processos de candidatura à CMV), incluindo diversas visitas, aparecendo finalmente um discurso bem articulado de apoio e de defesa do IPV e do ensino politécnico.

O próprio Conselho Estratégico de Viseu, a reunir esta semana, tem como primeiro tema de trabalho anunciado precisamente o ensino superior em Viseu.

Quanto à Assembleia Municipal de Viseu, enquanto órgão político máximo do Município, não pode alhear-se e tem, dentro das suas competências não executivas, de demonstrar o seu apoio incondicional ao Instituto Politécnico de Viseu, afirmando inequivocamente o papel basilar do IPV para a cultura, a economia, o conhecimento, a qualificação, a ciência e o desenvolvimento do Município, da região e do País, assumindo a Instituição como uma prioridade estratégica política de Viseu e da região.

* Texto baseado em intervenção e moção (aprovada) de apoio ao IPV apresentadas na Assembleia Municipal de Viseu de 28 de fevereiro de 2014.

Pedro Baila Antunes

(Deputado Municipal em Viseu, G.M. PS)