Poderes no masculino: a eterna questão?

por Ana Albuquerque | 2014.12.09 - 13:29

 

 

Um estudo recente, entre muitos que compulsei, revela que nos órgãos de direção de topo das escolas predominam os homens! No entanto, nos órgãos de gestão intermédia, nomeadamente, departamentos curriculares, coordenadores de diretores de turma, representantes de disciplinas, por exemplo, encontramos, sobretudo, mulheres! Sei bem que nos concursos para diretores podem concorrer, em igualdade de circunstâncias, mulheres e homens!

Poderíamos questionar-nos sobre as razões que estarão na base desta presença maioritariamente masculina, nos órgãos de direção de uma organização escolar, um locus “povoado” essencialmente por mulheres! Repare-se na quantidade de professoras, de assistentes operacionais, de assistentes técnicas, de mães representantes nos conselhos de turma, de alunas por turma, por exemplo!

Confrontando dados da profissão docente com outros estudos levados a cabo em organizações de natureza distinta, podemos constatar que se verificam grandes assimetrias na ocupação de cargos de direção. De acordo com a Comissão das Comunidades Europeias, no seu Relatório Intercalar sobre os Progressos no Roteiro para Igualdade entre Homens e Mulheres (2006-2010), apesar de nos últimos 50 anos, a participação das mulheres na vida social ter registado progressos inegáveis “ […] continuam a estar sub-representadas em todas as esferas do poder na maioria dos Estados-Membros, bem como nas instituições da U.E.”

Será por que um grande número de mulheres continua a assumir a maior parte das responsabilidades familiares e domésticas e daí a sua dificuldade em conciliar a vida profissional e a vida familiar? Será por que se perpetuam práticas e estereótipos culturais de uma tradição virada para o masculino que não possibilitam, ou pelo menos não facilitam, que as mulheres usufruam de igual disponibilidade ou não lhes conceda o reconhecimento do seu devido mérito? Quem o não reconhece? Os homens ou as outras mulheres?

Que significado poderemos atribuir ao facto de, por exemplo, os representantes dos pais de um conselho geral de um agrupamento de escolas serem todos homens, quando muitas investigações confirmam que são, habitualmente, as mães que vão à escola para tomar conta das ocorrências da vida escolar dos seus educandos?

Esta situação torna-se tão caricata ao ponto de alguns investigadores nos falarem, por um lado, de uma “feminização da vida da escola” e, por outro, contraporem, de imediato, com resultados que evidenciam que a proporção de homens aumenta nos momentos formais e públicos de decisão, continuando a refletir a divisão de papéis sexuais dominantes (Pedro Silva, 2003).

Sendo a escola, pela sua natureza emancipatória, pelo seu inegável papel na educação para a cidadania, é, ou deve ser, um dos meios mais privilegiados de reconfiguração social dos papéis dos homens e das mulheres, no contexto de uma efetiva igualdade de oportunidades para todos, de democracia, afinal. Então o que se passa?

Alguns estudos académicos relacionados com esta temática, de género e poder, apontam para a necessidade de desmistificação e desconstrução das representações sociais de género pois, ao continuarmos a atribuir relevância à “variável género”, estamos, de certo modo, a amplificar e a perpetuar esta discriminação e a dominação de um deles. Acrescentam, ainda, que as análises sobre relações de poder não se podem confinar aos critérios do feminino/masculino. As relações dos atores, nas organizações, devem ser estudadas no campo da desocultação das suas lógicas de ação, isto é, das relações múltiplas e contextualizadas de luta pelo poder. (Custódia Rocha, 2005, 2007).

Será que as mulheres não têm “mesmo jeito” para abraçar estas lutas?

Não estou convencida!