Plano B

por Sofia Amaro | 2015.02.18 - 19:46

 

Com a ressalva geoestratégica, o plano Merkel ficará inviabilizado pela aproximação da Grécia à Rússia, sabendo que Washington não ficará indiferente à decisão. A Grécia, como membro da NATO, fica numa região crucial e é um país ortodoxo, à semelhança de Chipre. Sabendo que Nicósia já colabora e cede o seu espaço aéreo à Rússia e que Alexis Tsipras tem um plano particular, a saída da Grécia da NATO. Facto inegável que mudaria o curso do jogo geopolítico internacional, devido ao encerramento das bases militares estrangeiras na Grécia e ao abandono da NATO, sendo que Atenas é um parceiro central na região do Mediterrâneo. E os EUA possuem aqui uma base importante, respectivamente na ilha de Creta, fundamental para a abrangência do Mediterrâneo oriental, sobretudo neste momento de grande instabilidade. Mas não só, a Rússia, por questões energéticas com o traçado do gasoduto alternativo ao famigerado South Stream, tem imensas vantagens para os gregos. Penso, por isso, que este governo não exclui um acordo energético com o governo de Putin, que prevê construir um gasoduto, que permeará a Turquia, passando perto da fronteira grega. A Rússia construiria assim um gasoduto até à Turquia e enviaria o gás por terra até à Grécia que, consequentemente, seguiria para a Europa.

Talvez seja possível o desfecho aqui gizado, e perante este repto, à Alemanha e à Europa só lhe restam ceder, e se assim não for, serão tragicamente eivadas pelos ventos boreais. 
“Pois, na minha avaliação, a visão dos nossos líderes a proclamaram uma tal vitória contra a Crise tem um forte cheiro do momento em que Neville Chamberlain retornou de Munique, a contar a um aliviado público britânico que o acordo fora encontrado e a prometer-lhe “Paz no Nosso Tempo”. Naturalmente, tudo o que ele havia conseguido fora comprar tempo para que a Guerra se tornasse mais forte, mais ameaçadora, de uma letalidade para além da compreensão. Analogamente, nossos líderes europeus apenas cederam a uma forma de Apaziguamento. Não da Alemanha (uma vez que estes líderes são, para ou melhor ou o pior, alemães) mas sim da Crise. Uma Crise que, sob a cobertura de celebrações inócuas de “resoluções” e “salvamentos”, está a tornar-se cada vez mais forte, mais desagregadora e eficiente no modo como corrói os próprios fundamentos da eurozona.” Yanis Varoufakis

 

Sofia Amaro nasceu em Mirandela, Trás-os-Montes. Licenciada em Filosofia, pela Universidade Nova de Lisboa, traça o seu percurso académico na área das Relações Internacionais e envereda por um mestrado em Pedagogia na Universidade de Liége, Bélgica, país onde reside. Tem várias obras transversais à escrita, desde o cinema de animação, como argumentista e guionista do filme A Estrela de Gaspar para a Animanostra /RTP, à banda desenhada para a Pública (suplemento do Jornal Público) e Beraca em co-autoria com Pedro Brito, assim como outras publicações. A última como jornalista na revista belga La Revue Nouvelle. Tem uma relação umbilical com o teatro, dedicando-se várias vezes à leitura de autores como David Lescot ou como autora da peça A Cartografia do Medo. Recentemente publicou O Umbigo de Deus laureado com duas menções honrosas, o Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes e o Prémio literário Alves Redol, e em breve termina um novo romance. Como um pêndulo continua a escrever sobre os indícios humanos, a natureza e a relação entre as esferas como um derradeiro sinal de metamorfose.

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