Pensamento único e radical

por Norberto Pires | 2015.02.06 - 11:00

Do que eu mais tenho medo é de gente impreparada e sem mundo. São vítimas demasiado fáceis para radicais bem preparados que, com o objetivo de os arregimentarem e conseguirem atingir os seus propósitos, lhes enchem a cabeça com fantasias e soluções para problemas circunstanciais – pois não têm nada de civilizacional ou sequer de relevante – que conseguem elevar à condição de estrutural. O procedimento consiste em formatar e tipificar tudo, pelo que o que é necessário fazer é seguir um menu de instruções, que perentoriamente denominam por “as regras”, de forma acéfala e sem nenhum tipo de sentido crítico. Para que tudo funcione é necessário ter uns quantos radicais, especialmente pouco dotados, que gritam com frequência a cartilha aos outros. A ideia é simples e consiste em esconder-lhes a realidade, absorver-lhes o bom-senso e a humanidade, e retirar-lhes a tolerância, a capacidade de pensar, de criticar e de discernir. Funciona durante algum tempo. A nossa história coletiva está repleta de vários exemplos que aparentemente funcionaram durante breves momentos, porque resolviam os tais problemas que não existiam ou eram acessórios, ao mesmo tempo que tornavam a sociedade intolerante e antidemocrática, mas que terminaram sempre de forma trágica. Impressiona-me a incapacidade de aprender com esses exemplos.

Estou muito preocupado com o caminho que segue a Europa e com a incapacidade que revela para se debater e resolver os seus problemas. Muito preocupado ao observar como a Europa retirou a humanidade, e consequentemente o bom-senso e a dimensão civilizacional, como critério das suas decisões e debates, reduzindo tudo à condição financeira imediata. Estou preocupado em como se tornou antidemocrática e de pensamento único, incapaz sequer de considerar outras ideias, outras perspetivas, que tenham potencial para resolver os problemas em que estamos todos submersos há vários anos. Se alguém, mesmo que seja um Governo democraticamente eleito, se atreve a fugir da cartilha imposta pela Alemanha é imediatamente trucidado pelos indefectíveis, sempre prontos a mostrar obediência na mira de recompensa vã, sem sequer serem debatidas as propostas que fazem. O rumo está traçado e não se muda, afirmam do alto das suas ignaras certezas, apesar dos resultados que são catastróficos, do desastre económico e social que está iminente e é já bem visível, e de assistirmos todos ao colapso de uma Europa que tantas vidas custou e que tantos sonhos representa. Vivemos numa Europa antidemocrática e de pensamento único que recusa parar para pensar. É urgente que se diga isso. E é urgente que se coloquem as questões: a quem é que tudo isto interessa? Por que razão é tão importante para o poder instituído na Europa que o atual Governo grego não tenha sucesso ou sequer seja ouvido? Por que razão se eles fazem propostas que fazem sentido e por isso merecem ser consideradas?

Onde está o erro em agregar o pagamentos das dívidas monstruosas dos Estados ao crescimento económico desses Estados, e portanto ao sucesso das reformas acordadas por todos e ao crescimento da economia da União Europeia? Em que é que isso é diferente do que foi acordado com a própria Alemanha no período pós-guerra e permitiu o extraordinário milagre alemão? Como podem países como Portugal, Espanha, Irlanda, Grécia, Itália, e muitos outros, absorvidos por serviços de dívida monstruosos, recuperarem a sua economia sem custos desnecessários para as famílias, se tudo isto não for visto noutra perspetiva baseada em compromisso comum, reformas verdadeiras que tenham objetivos civilizacionais no horizonte e nunca fatores conjunturais ou o lucro de certos indivíduos ou organizações? Qual é o erro em fazer uma conferência da dívida e reconsiderar o caminho que se está a percorrer, analisando os resultados e percebendo os ajustes que são necessários tendo em vista as pessoas, as suas vidas e os seus sonhos? Não foi para isso que foi imaginada e construída a União Europeia?

Permitam que se retire a humanidade das coisas, que se perspetive tudo sem uma dimensão civilizacional, deixem que se pense só nos custos financeiros imediatos esquecendo todos os outros e vão ver em que vai resultar essa “gestão”.

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal "Robótica". Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

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