Pela nossa saúde! Valha-nos o memorando da troika!

por João Fraga | 2014.02.13 - 16:49

Sistematicamente, têm-se verificado situações de dificuldade de acesso aos cuidados de saúde no Serviço Nacional de Saúde (SNS), especialmente nos serviços de Urgência dos hospitais. Grandes atrasos no atendimento das pessoas, com riscos objectivos (agravamento das situações de doença, sofrimento ou, mesmo, mortes de pessoas) e subjectivos (ansiedade, medo, perda de confiança no SNS).

Responsáveis do SNS (médicos, enfermeiros, administradores hospitalares) relevam, na análise dessa situação, para além da insuficiência de camas hospitalares, a falta de resposta nos cuidados de saúde primários, designadamente, quanto a médicos e enfermeiros de família, unidades de saúde familiares (USF) e funcionamento dos centros de saúde.

Por outro lado, os mesmos responsáveis (designadamente, os bastonários das Ordens dos Médicos e dos Enfermeiros) atribuem muito a falta de resposta dos cuidados de saúde primários à escassez de recursos (humanos e materiais) implicada por decisões governamentais de ordem financeira.

Acusado de tal pela Oposição, o Governo contesta que a situação de restrições orçamentais no SNS se deva a qualquer “agenda ideológica” que, designadamente, vise desmantelar o SNS. Fundamentando tais restrições com a necessidade de, também no SNS, “ajustar” a despesa pública de forma a “cumprir os compromissos com os nossos credores”, particularmente, o memorando da troika.

Ora, o cidadão comum que, por curiosidade (é coisa que “não” lhe diz nenhum respeito…), vai ler o famigerado memorando, fica perplexo quando lá repara no ponto 3.69: “O Governo prossegue com o reforço dos serviços de cuidados primários, de modo a reduzir ainda mais as visitas desnecessárias aos especialistas, as emergências e a melhorar a coordenação de cuidados de saúde (…)”.

Mal ou bem “calibrado”, o memorando da troika nunca cá deveria ter aparecido para fazer parte da nossa (má) memória.

Mas, pelos vistos, … pela nossa saúde! Valha-nos o memorando da troika!

Inspector do trabalho (aposentado), 67 anos, licenciado em Gestão de Recursos Humanos, com pós-graduação em Psicologia do Trabalho pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, residente em Santa Cruz da Trapa.

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