“Passado, Presente e Futuro do Serviço Nacional de Saúde”

por Cláudia Salgueiro | 2014.12.26 - 14:30

 

 

Decorreu no passado dia 20 de dezembro mais um Campus de Reflexão JS, com o tema “Passado, Presente e Futuro do Serviço Nacional de Saúde”, tendo como orador o Professor António Correia de Campos, no qual tive a honra e o gosto de ser a moderadora.

Com uma experiência riquíssima, o Professor Correia de Campos foi alternando entre factos que comprovam, sem margem para dúvidas, toda a exponencial evolução que a saúde em Portugal tem vindo a verificar nos últimos 35 anos, e histórias muito pessoais de um beirão que também vivenciou o atraso que existia no nosso país, no pré-Serviço Nacional de Saúde.

Numa altura de incertezas e mutações várias, em que médicos e enfermeiros emigram, em que hospitais públicos passaram a ter estatuto de Sociedades Anónimas e, posteriormente, de Entidades Públicas Empresariais, em que se vai verificando um desinvestimento no sector público da saúde, com prejuízos sérios para os cidadãos, em que parece haver uma escolha governativa numa crescente relação entre o serviço nacional de saúde e o sistema privado de saúde, torna-se importante momentos como os do passado sábado, que permitem uma reflexão sobre que modelo de Serviço Nacional de Saúde temos hoje e queremos para amanhã.

Há cerca de um mês, tive que levar a minha mãe às urgências do hospital, devido a uma queda que tinha sofrido. E quando pensamos em ir às urgências, mesmo que num sábado, a mesma ideia percorre as cabeças de todos nós: a saga vai começar, vamos lá ficar o dia todo!

A cor da pulseira que lhe atribuíram até foi das melhores possíveis, mas duas horas depois de chegarmos, ainda não tínhamos sido atendidas. Fiquei sempre alerta e em espera à porta da sala onde deveríamos ser consultadas. Até que, finalmente, uma médica entrou nessa sala e chamou a minha mãe, com um ar completamente esgotado. Eram 14 horas e a médica explicou que tinha estado toda a manhã numa intervenção cirúrgica, sem qualquer apoio de enfermeiros, que se encontravam noutra intervenção cirúrgica. Era a única médica, naquela especialidade, em toda a urgência. Antigamente, teriam feito um batalhão de exames, dignos de quem caiu e bateu com a coluna e com a cabeça. Mas agora não. É bastante o mínimo possível, porque as ordens superiores são para se “desperdiçar” o mínimo.

Quando já à noite abandonámos as urgências do hospital, só conseguia recordar uma altura em que estava a estudar no Porto e, de madrugada, tive que ir às urgências de um hospital privado da cidade. Fui atendida e fiquei pronta em meia-hora e no final a conta ficou em €7 – em qualquer hospital público teria ficado lá a noite inteira e teria que pagar logo à cabeça €20.

Sempre fui uma defensora acérrima do Serviço Nacional de Saúde. Quem não gosta da aplicação das ideias da Revolução Francesa, garantindo-se o acesso à saúde a todo e qualquer cidadão, independentemente da sua condição económica e social? Mas não basta a certeza do acesso, é necessário um contínuo investimento na qualidade – assim nos hospitais públicos, como nas escolas públicas. E, ultimamente, as famílias têm sido chamadas vezes demais para pagar a crise também da saúde, quando verificamos que surgem ineficiências persistentes e agravantes na saúde. Impõe-se perguntar: para onde está a ser canalizado esse dinheiro assacado às famílias, uma vez que escasseia o investimento no Serviço Nacional de Saúde?

Recordo uma ideia do Professor Correia de Campos, quando interpelado por um dos presentes no debate de sábado: não é suposto que a saúde dê lucro. E se estamos todos de acordo que alturas houve em que havia quase um desgoverno nos hospitais, com alguns médicos pouco assíduos, com alguma falta de racionalização nos gastos, com administrações pagas a preço de ouro, a verdade é que também me parece que o caminho que tem vindo a ser traçado nos últimos tempos, de desvalorização da vida humana e de hipervalorização dos números, não é o mais acertado.

Enquanto “joia da democracia”, o Serviço Nacional de Saúde, 35 anos depois, está vivo e merece ser valorizado, trabalhado e lapidado, porque, como sabiamente disse Michel de Montaigne, “É coisa preciosa, a saúde, e a única, em verdade, que merece que em sua procura empreguemos não apenas o tempo, o suor, a pena, os bens, mas até a própria vida”.

Elemento da Concelhia de Viseu da Juventude Socialista (JS)

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